Big Little Lies e a representação feminina na televisão

 

Apesar do aumento de protagonistas mulheres nos últimos anos, as séries de TV ainda estão longe de apresentarem uma grande variedade de personagens femininas complexas e bem trabalhadas, diferente do enorme número de homens que povoam as nossas telinhas.

Na cabeça de muitos, personagens femininas existem para catapultar histórias masculinas, ajudar a desenvolver esses grandes personagens. E quando não é assim, acabam caindo nos estereótipos, onde mulher sempre é a dama que não fala por si mesma e precisa de um homem para se autoafirmar.

Apesar disso, não estou esquecendo de Olivia Pope, Patty Hewes, Alicia Florrick, Annalise Keating e muitas outras mulheres incríveis e bem construídas que fazem parte de muitos seriados. Só que quando paramos para analisar a quantidade de personagens masculinos bem trabalhados, tridimensionais, com diversas camadas de personalidade, a disparidade fica óbvia. E se ampliarmos a discussão e pensarmos na quantidade de personagens mulheres bem construídas, que não fazem parte do grupo de badass com algum tipo de habilidade profissional excepcional e que geralmente disputam diretamente com os homens, a representação diminui consideravelmente.

Então quando nos deparamos com uma história onde as protagonistas são mulheres, com problemas realistas, com questões que a maioria enfrenta no dia a dia, é sempre uma felicidade.

Big Little Lies, a minissérie adaptada do romance da australiana Liane Moriaty, produzida pelas atrizes Reese Witherspoon e Nicole Kidman e que atualmente é exibida pela HBO, é um desses felizes casos de boa representação feminina na televisão.

O plano de fundo é uma investigação de um assassinato que aconteceu em um evento na cidade de Monterey, na Califórnia. Esse é o ponto de partida para podermos ver a vida das mulheres do local, suas intrigas, dificuldades e segredos.

A forma como a história trabalha a vida das mães que vivem nesse lugar, focando principalmente em Madeline (Reese Whisterspoon), Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley), Renata (Laura Dern) e Bonnie (Zoe Kravitz), é impressionante. Cada uma tem um background diferente, problemas específicos e que, de modo geral, tem relação com o fato de serem mulheres.

 

Maternidade versus carreira, violência doméstica, problemas entre mãe e filha, infidelidade, casamento. São muitas questões que permeiam o ambiente aparentemente perfeito dessas personagens.

Tudo é retratado com muita delicadeza e mostra como é complicado, mesmo para mulheres que aparentemente possuem tudo, viver em uma sociedade que acredita que devemos nos enquadrar em papéis predefinidos.

Big Little Lies não ameniza nada. Tem muito tato para retratar as dificuldades que elas vivem, mas não ameniza o que mostra. Muitas vezes sendo doloroso ver como, independente da condição financeira, ser mulher é sempre uma luta constante para se fazer ouvir e enxergar.

Outro ponto positivo da minissérie é como ela mostra a sororidade, o verdadeiro carinho e amizade entre mulheres; sem esquecer nunca que em um mundo onde se educam meninas para serem inimigas umas das outras, exercer esse tipo de companheirismo nem sempre é fácil. A história é contada através da perspectiva feminina e os homens são mostrados com esse olhar, algo difícil de encontrar na TV.

Inicialmente Big Little Lies pode parecer uma história de assassinato, ou de pessoas ricas e fúteis. Apesar de conter uma morte misteriosa e personagens com suas doses de futilidade, a HBO colocou no ar uma obra cheia de profundidade, com questionamentos muito válidos, com personagens que estão além de ideias maniqueístas de mocinhas e vilãs. Uma das melhores estreias de 2017.

4 comentários em “Big Little Lies e a representação feminina na televisão

  1. Big Little Lies, desde que foi anunciada, despertou a minha curiosidade, seja pela sinopse ou pelo elenco de cinema. Ainda não tive oportunidade de vê-la, mas está na minha lista. Concordo plenamente na falta de grandes papéis femininos, sugiro-vos as séries de Ryan Murphy, como American Crime Story ou a recente Feud, abordam muito o feminismo com grandes protagonistas. È um produtor que aposta na mulher, ajudando na construção de carreiras, como o exemplo da Sarah Paulson ou no relançamento de carreiras de actrizes esquecidas e menosprezadas pela idade, como a grande Jessica Lange.

    Bitaites de um Madeirense

    1. Eu assisto as série do Ryan e gosto de como, em geral, ele trabalha os papéis femininos. Na verdade ele chega a discutir misoginia dentro das série e acho muito importante.
      Feud poderia ser apenas mais uma série que coloca mulheres como inimigas, mas ele está tratando do problema da indústria do entretenimento, que transforma as mulheres em inimigas. Acho bem interessante.
      E é maravilhoso como ele tem ajudado nas carreiras de tantas atrizes excelentes.
      Ele tem feito um grande trabalho.

Deixe uma resposta