Chimamanda e a transfobia

No começo do mês, a autora nigeriana – e referência feminista internacional – Chimamanda Adichie se viu no centro de um furacão de ódio e críticas após uma declaração polêmica sobre pessoas trans, dada em entrevista ao Canal 4.

Na entrevista, Adichie falou:

“Acho que todo o problema do gênero no mundo é sobre nossas experiências. Não é sobre como usamos nossos cabelos ou se temos uma vagina ou um pênis. É sobre a maneira como o mundo nos trata, e eu acho que se você viveu no mundo como um homem com os privilégios que o mundo concede aos homens e, em seguida, acontece a mudança de gênero, é difícil para mim aceitar que então podemos igualar a sua experiência com a experiência de uma mulher que viveu desde o início como uma mulher a quem não foi concedido os privilégios que os homens têm.”

Que Adichie foi infeliz no seu modo de se expressar é algo que ficou evidente bem depressa.

Ela generalizou as vivências tanto de mulheres cis como de mulheres trans, esqueceu de incluir em sua análise a existência de homens trans e, por fim, escolheu um monte de palavras imprecisas para falar sobre um assunto muito delicado.

Mas, como um movimento social precisa – pela sua natureza e como diz a própria palavra – ser algo fluido, acho importante não perdermos a oportunidade de avançar no diálogo. Analisando não a pessoa, mas o que ela disse.

 

1º Privilégio não é igual a “vida ganha”

A meu ver, o primeiro mal-entendido surgido com a fala de Chimamanda é uma abstração do conceito de “privilégio”.

“Privilégio” significa uma prerrogativa válida para uma maioria em detrimento de outros. É algo que cria uma hierarquia social não linear, já que precisa ser analisada através da composição de sub-grupos. Não significa que a pessoa privilegiada não sofre nenhum tipo de opressão, mas apenas que ela é beneficiada em certa instância.

Por exemplo, em muitos cenários, o homem negro pode sofrer opressões maiores que uma mulher branca. Mas isso não muda o fato de que ele tem os privilégios sociais dados aos homens. Do mesmo modo que, mesmo sofrendo com o machismo institucionalizado, a mulher branca ainda terá os privilégios sociais garantidos aos brancos.

Privilégio não é a ausência de opressão, mas apenas uma menção a vantagens que certos grupo têm em relação a outros.

Quando você nasce com uma vagina, é imediatamente lançada no pacote de gênero marcado “mulher” e é esperado que você sente como uma mocinha, que não brinque como os meninos, que seja construída para servir a um homem, que seja ensinada a se proteger porque os homens não conseguem se controlar. Você cresce aprendendo a temer facetas da sociedade e a reprimir elementos de sua própria personalidade. A interiorização do abuso começa desde cedo com os discursos do “se o coleguinha te bate é porque gosta de você” ou “mulheres amadurecem mais rápido que homens”. Você aprende a suportar assédio, mesmo que ele te constranja ou apavore, porque é um “elogio”. Entre outras opressões inúmeras para citar.

Quando você nasce com um pênis, é lançado no pacote do gênero masculino e não sofre essas opressões.

Isso NÃO significa que você não sofra OUTRAS opressões.

Só significa que não são as mesmas.

Dizer que uma mulher trans entende exatamente as experiências de uma mulher cis, apenas por ser mulher, é tão injusto quanto dizer que uma mulher cis é capaz de compreender todas as opressões sofridas por uma mulher trans, apenas por ser mulher.

Atentar para esse fato não quer dizer que Adichie é transfóbica e acha que pessoas trans não merecem espaço.

As coisas não precisam ser iguais para serem igualmente protegidas.

A infelicidade da fala, na minha opinião, repito aqui, foi a generalização das experiências.

 

2º A acusação do essencialismo

Ao criticar o deslize da autora, muitos veículos foram ávidos em negar a interseccionalidade de Adichie, acusando-a de essencialista, ou seja, de defender uma visão exclusivamente biológica dos gêneros.

Nesse ponto, eu queria fazer uma defesa enfática:

Gostaria que alguém circulasse para mim a parte do texto em que ela diz que “mulheres trans não são mulheres simplesmente por terem nascido com um pênis” porque eu realmente não consegui encontrar… Para mim, é de um reducionismo desleal querer sintetizar toda a fala nessa única frase de má-fé, como fizeram muitos. Já estabelecemos que Chimamanda não se expressou bem, mas não há necessidade em piorar o que já foi mal dito.

“Mulheres trans são mulheres trans” disse Chimamanda em outro momento.

Mulheres trans são mulheres trans, do mesmo jeito que mulheres lésbicas são mulheres lésbicas e mulheres negras são mulheres negras.

Enfatizar o recorte das experiências distintas de cada grupo é o núcleo da interseccionalidade. Logo, acredito que acusá-la de essencialista por ter sido humana e se expressado mal, é um pouco além do necessário. É atacar a pessoa e não o argumento.

 

3º A acusação da transfobia

Não vou me manifestar aqui porque eu acho que não cabe a uma pessoa cis dizer o que é transfobia. Do mesmo jeito que não cabe a um homem definir machismo ou a um branco definir racismo.

Se pessoas trans se sentiram ofendidas com o discurso de Chimamanda, devemos revisitá-lo para entender como fazer o diálogo acontecer sem que essa ofensa seja sentida

Mas o diálogo precisa acontecer porque há relevância nas suas palavras:

“Na intenção de sermos inclusivos, às vezes negamos as diferenças” disse ela.

Esse é um problema real que o movimento como um todo enfrenta.

Precisamos incluir e aglutinar, mas como fazer isso respeitando todos os recortes em todas as suas infinitas subjetividades? E mais: como fazer isso sem se expressar mal ou ser mal compreendido?

Como abrir o diálogo para conciliar duas facetas de um mesmo movimento mas que, por um lado – feminismo radical – quer a anulação absoluta das tarjas de gênero, enquanto, do outro – transativismo – luta por uma inclusão nessas mesmas tarjas?

Esse é um tema que precisa ser debatido sob o risco do feminismo e o transativismo entrarem em choque. Algo que já começa a acontecer entre vertentes mais radicais de ambos os lados, e que deve ser evitado para que possamos avançar juntos.

Chimamanda errou no modo de se expressar, mas o diálogo nunca é inútil.

Precisamos incluir, sim. Mas não precisamos negar as diferenças para fazer isso.

 

“Não acho que as coisas são iguais. Mas não acho que elas precisam ser para que possamos nos apoiar mutuamente.”

– Chimamanda Adichie

Um comentário em “Chimamanda e a transfobia

  1. A Chimamanda Adichie traz muitas discussões relevantes, mas dessa vez ela não foi feliz em seu discurso. Faltou preparação. Excelente texto!

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