A expulsão no BBB e o feminismo de internet que não serve de nada

 

Por questão de transparência, eu preciso começar esse artigo dizendo que eu não assisto Big Brother Brasil, e não por qualquer crença autoinflingida de superioridade intelectual, mas apenas porque:

1 – Não tenho tempo.

2 – Não tenho televisão. (Não no sentido tradicional, pelo menos)

Mas eu tenho internet. O que significa que nas últimas 24 horas, não pude deixar de acompanhar o caso de agressão que se passou dentro da casa do programa, e a consequente revolta que se instaurou quando a emissora se absteve de tomar uma decisão mais definitiva – apesar da última semana ocupada por votos de “Mexeu com uma, mexeu com todas” que se espalhou a partir dela mesma…

Não sei exatamente o que se passou dentro da casa, mas agressão é agressão e quando o assunto é machismo, as violências normalmente têm o mesmo ciclo de vida o que as torna idênticas em raiz e previsíveis em crescimento.

Hoje pela manhã, as notícias avisam que o rapaz em questão foi expulso da casa quando até mesmo a delegacia do Rio se envolveu no caso, e eu poderia achar que foi apenas decência da emissora somada a um bom funcionamento dos órgãos públicos.

Mas eu tenho internet. O que significa que nos últimos anos, eu tenho acompanhado o “feminismo de internet” – que autoras como Kira Cochrane vão ao ponto de chamar de Quarta Onda – e o que ele foi capaz de conquistar.

O feminismo tradicional teve (e em muitos sentidos ainda tem) uma dificuldade em reconhecer a força desse feminismo soft feito do sofá de casa e na segurança do lar. Mas ela existe:

No grupo de whatsapp, uma mulher pediu socorro. Logo duas ou três mulheres que moravam por perto se prontificaram a chamar a polícia e ir visitá-la. Caso de violência doméstica foi identificado. Outra mana do grupo recebeu a vítima em casa enquanto ela colocava a vida em ordem.

Pelo Twitter, a menina de 15 anos começa a perceber que chamar as outras de “inimiga” é um comportamento aprendido que não faz qualquer sentido.

Em grupo de Facebook, a mulher traída percebe que a culpa da traição não tem nada a ver coma  amante e sim com o próprio marido. Ela e a amante entram em contato, se conhecem, tornam-se amigas.

Uma criança é estuprada por mais de 10 homens. Milhares de compartilhamentos e denúncias, uma advogada feminista, uma delegada que estava em um dos grupos. O caso é investigado, os printscreens arquivados como prova.

Uma mulher conservadora anti-feminista é assediada por um político nacionalmente conhecido. Todos de seu convívio se voltam contra ela, questionam seu relato, culpabilizam seu comportamento. Pela internet, ela descobre apoio onde menos imaginou: vindo em grandes volumes dos grupos de feminismo que ela antes via como oponentes.

Um marca de cerveja usa o corpo feminino. Um filme faz um whitewashing de protagonista feminina. Um reality show exibe um homem agredindo uma mulher.

Mas nós temos internet.

E se é mais fácil não calar, então é mais fácil se fazer ouvir.

A marca parou de objetificar. O filme sofreu boicote.

O agressor foi expulso.

E o “feminismo de internet” segue colhendo pequenas vitórias que, ao fim, pode fazer toda a diferença.

A feminista interseccional diz que esse feminismo introdutório não tem recorte. A radical diz que ele não tem sustentação. A marxista diz que ele se desvirtuou no neoliberalismo consumista.

Talvez elas estejam todas certas.

O problema, na minha opinião, está em encarar esse feminismo introdutório de internet como a solução para todos os males sociais perpetuados pelo machismo. Ele não é a etapa final para onde todo o movimento quer ir. Ele é uma ferramenta e, mais que isso, é uma porta de entrada.

Se educação é o modo de mudar o mundo, o feminismo de internet é a sala de aula: o espaço seguro onde a novas feministas é permitido crescer em segurança. Até que um dia se tornem interseccionais, enchendo as fileiras no movimento negro, lgbt ou no transativismo. Até que um dia se identifiquem com o radical, ou o marxista… ou até mesmo o neoliberal: porque de nada serve defender a liberdade para todas as mulheres se, no fim do dia, só o que queremos é que elas concordem com a gente em absolutamente em tudo.

Faz alguns anos que tive um diálogo curioso com meu marido.

Ele olhou para mim, meio subitamente, e disse:

“Graças a você, hoje eu vejo machismo em tudo”

E eu só perguntei: “Sabe por quê?”

Ao que ele respondeu: “Porque existe machismo em tudo”.

Tenho pensado nesse diálogo enquanto escrevo esse texto porque duvido que esse tenha sido o primeiro BBB em que uma mulher foi agredida – de qualquer modo que seja – mas talvez tenha sido um dos poucos em que houve uma reação.

Essa reação, no entanto, só existe porque nossos número aumentaram nos tornando mais fortes, estamos gritando tão alto que não é mais possível nos ignorar como um dia foi.

E isso tudo só aconteceu porque nós temos internet.

Porque nós usamos a ferramenta para disseminar o conhecimento e agora as mulheres não aceitam mais essa merda em silêncio.

O machismo existe em tudo e, agora, nós somos melhores em enxergá-lo. As reações vão continuar aumentando. Serão cada vez mais fortes. Serão revolucionárias.

E o feminismo de internet que tantas consideraram servir para nada, vai ser o pivô que tornará tudo isso possível.

Sobre o BBB, que siga sendo assistido ou não. A mim, cabe apenas abrir um parênteses para dizer que fiquei decepcionada em descobrir que não foi exibido o momento em que o agressor descobriu que seria expulso.

Se vivemos em uma sociedade que expõe uma mulher sendo agredida em alta definição, então a luta começa exigindo que os homens também sejam punidos exatamente no mesmo formato.

A emissora, no entanto, poupou o homem da humilhação (embora à mulher nunca seja dedicada a mesma cortesia) e se dependesse apenas da televisão, a imagem do agressor seguiria preservada.

Mas nós temos internet.

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