Clímax e o discurso masculino sobre misoginia

Fazia tempo que um livro não me irritava tanto.

Clímax é uma sátira de Chuck Palahniuk – autor de Clube da Luta –  que se propõe a criticar misoginia, sociedade de consumo, sexualidade feminina e a literatura erótica moderna. No começo da historia conhecemos Penny Harrigan, estagiária medíocre e superficial que atrai o olhar de um bilionário famoso, e passa a servir de cobaia em seus experimentos sexuais para criar as ferramentas necessárias para controlar todas as mulheres do mundo.

Infelizmente, isso é tudo que posso contar sobre o livro sem ceder a spoilers.

Muito rápido, eu percebi que  narrativa de Palahniuk nesse livro ia ser algo entre Saramago e Agualusa – dois dos meus favoritos – usando o real e o surreal lado a lado para avançar na narrativa.

reductio ad absurdum (ou “reduzir ao absurdo”) é uma técnica que eu amo ver em sátiras. O autor leva o argumento – inicialmente racional – até o limite máximo do absurdo para te mostrar o quão ridículo ele é e que, na verdade, a loucura habita nossa sociedade disfarçada de razoabilidade.

O problema é que Palahniuk parece ter esquecido que, para fazer uma sátira, é preciso de… bem… uma sátira.

Ao invés disso, ele parece se perder em centenas de páginas sobre como a humanidade é estúpida, transformando, o que deveria ser uma crítica, em um tratado autoafirmativo da própria intelectualidade.

Até a metade do livro, eu estava salivando em cima das páginas. Havia muita promessa e muito potencial.

O livro abre com uma cena de estupro e – pela Deusa – eu nunca imaginei que fosse elogiar uma cena de violência assim na minha vida, mas é fantástica.

[SPOILER NESSE TRECHO] Fantástica, porque o estupro acontece em uma sala de audiência, na frente de juiz, advogados e polícia… e ninguém faz nada. O autor descreve como se os homens na sala estivessem incomodados não com o fato da mulher estar sendo violada, mas com o fato dela estar gritando. Eles não fazem questão que a violência acabe, mas querem que ela se cale. Quando a ajuda finalmente chega, na forma de paramédicos, ao invés de ficar a salvo, ela passa a ser criticada e culpabilizada.

Genial, Palahniuk! Sem sarcasmo. Foi uma crítica ácida, contundente, incrível.

A partir daí, o livro segue promissor, em sua crítica aos rocambolismos de romances modernos – como autora de literatura erótica, assumo minha cota do mea culpa aqui, sem problemas – e tem momentos brilhantes de críticas ao tropo da feminista louca e à arbitrariedade da sociedade de consumo.

Mas, em todo seu potencial, o livro acaba virando uma ridicularização de si mesmo.

Sátiras são inteligentes quando elas são suaves.

Quando Saramago descreve uma mentira de um ladrão e uma mentira de um padre apenas para acabar as duas cenas com exatamente as mesmas linhas de texto, ele está fazendo uma crítica discreta em sua narrativa cíclica. Ele está te perguntando “qual a diferença?” e te fazendo questionar.

É inteligente porque é suave.

Palahniuk, no entanto, tem a suavidade de um elefante com um porrete.

No segundo que Penny tropeça, caindo para dentro da sala, e atrai a atenção do bilionário… a referência foi um pouco forçada demais. Tudo bem, Palahniuk, você está criticando 50 Tons de Cinza, já entendemos.

O livro deixa de ser uma sátira perspicaz e passa a ser um besteirol americano.

Eu contei, em Climax, cinco menções literais a “livrinhos adolescentes de vampiro” e suas variáveis.

Se Agualusa quisesse fazer uma sátira a livros adolescentes de vampiros, eu duvido que ele usasse as palavras “livros”, “adolescentes”, ou “vampiros”, quem dirá juntas, quem dirá no diminutivo “livrinhos” em uma ridicularização infantil.

Clímax não é uma sátira inteligente e, depois de concluir a leitura, fiquei na dúvida se era mesmo uma sátira ou só um livro de ódio.

Palahniuk critica o machismo em nossa sociedade em duas ou três cenas que conseguiram ficar quase interessantes, embora nunca ficassem discretas. MAS, para um livro que se propõe a criticar misoginia, o autor passa BASTANTE tempo criticando mulheres.

São todas fúteis, com mentalidade de manada, preocupadas com bens de consumo e livrinhos de vampiros. Essa é a crítica que o autor faz às mulheres de nossa sociedade. Eu entendo que, para fazer uma sátira, o autor precisa narrar uma situação que tenha o problema a ser criticado. No entanto, é preciso tomar cuidado para não se tornar aquilo que se critica, o que, na minha opinião, é o que se passou com Clímax.

Uma protagonista feminina estúpida e superficial que faz quase nada sozinha e termina por se render ao próprio mal que tentou combater, como se toda sua jornada de pseudo-empoderamento de nada tivesse servido.

Palahniuk foi bem sucedido em representar o tropo da feminista louca, quando a única mulher que sabe o que está acontecendo tenta reagir, as outras a veem como insana. Foi inteligente e não passou despercebido. Mas se a proposta era criticar misoginia, porque a jornada da Única Sobrevivente? Por que não tivemos mais mulheres com Penny, lutando contra o machismo, ao invés de uma única? Acaba que, ao tentar criticar o tropo cruel da feminista louca, o autor se perde em outro tropo igualmente cruel: a da diferentona. A mulher que não é como as outras e por isso merece mais.

E que merda foi aquela de “As mulheres são os novos mestres do mundo”? O cara que representa o machismo, na história, diz essa frase e a protagonista não demora muito a concordar. Isso é o discurso do “feminismo já foi necessário, mas não mais” enfiando em uma suposta sátira contra misoginia.

Tá de parabéns, Palahniuk. Com sarcasmo.

E tem mais: SÓ EM UM LIVRO ESCRITO POR UM HOMEM, poucos dias depois de ser estuprada, uma mulher vai se arrumar para sair e comentar que “ser observada por homens na rua é ótimo, faz bem ao ego”.

SÓ SENDO ESCRITO POR HOMEM MESMO.

E esse não é de longe o único defeito.

Penny, presa em um cenário onde mulheres estão sendo violadas em seus corpos e suas mentes, entra em um ambiente só com homens e diz que é “assustador e empolgante”.

EMPOLGANTE, gata? Sério??

Foi nesse sentido uma das primeiras decepções que tive durante a leitura.

O sexo entre Penny e Bilionário é mecânico, o que, na minha opinião, funcionava bem como uma crítica à literatura erótica moderna, até o autor se perder em infinitas repetições que serviram para nada além de tornar a leitura tediosa. Mas, em um momento, Penny fica menstruada e eu achei que o autor ia aproveitar para fazer uma crítica a homens que tem nojinho, ou descrever como a sexualidade das mulheres muda nesse período.

Mas não.

Bilionário diz que ela tá de folga quando tá menstruada.

Uma linha para menstruação em um livro que promete discutir sexualidade feminina.

Eu já disse que o Palahniuk tá de parabéns hoje?

Mas o pior… o pior de tudo… o que não deu pra suportar:

[SPOILER NESSE TRECHO] Acontece que os aparatos sexuais feitos pelo Bilionário – representando o machismo – tiveram sucesso em controlar todas as mulheres do mundo, transformando-as em um exército de escravas-zumbis-consumistas. Quando Penny – representando (muito mal) o feminismo – finalmente consegue libertar as mulheres e as empodera de volta, devolvendo-lhes o poder sobre si mesmas… qual a primeira coisa que essas novas mulheres libertas pelo feminismo fazem?

COLOCAM MAQUIAGEM.

M A Q U I A G E M

SÓ sendo escrito por um homem.

É como Carissa disse há pouco tempo aqui nesse texto, nós PRECISAMOS de histórias contadas por mulheres.

Sendo sátiras ou não, precisamos mesmo.

Porque não tá fácil, migas.

Não tá fácil, mesmo.

 

Um comentário em “Clímax e o discurso masculino sobre misoginia

  1. Cara, só rindo de coisas assim.
    Quando você falou da protagonista que após ser estuprada queria a atenção masculina na rua, eu lembrei de um livro que li no qual a menina menstrua pela primeira vez (do nada, na situação mais aleatória possível) e dois segundos depois vem com “agora sou uma mulher”, agarra o primeiro cara que aparece e “agora sou mulher, vamos transar”. Isso tudo depois de uma crise existencial que (supostamente) foi bem impactante na vida dela. Mas né, agora sou “mulher”… Prioridades.
    Adoro quando alguns homens tentam escrever livros pela “mente feminina”. Mostra porque o feminismo ta ai.

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