Rogue One e o falso protagonismo feminino

 

Talvez este não seja o post que boa parte dos fãs de Star Wars esperariam ver em um site no May the 4th, o Dia de Star Wars. Muitas homenagens são feitas ao filme, todos  celebram a saga que é favorita de tanta gente. Só que como aqui no Malcriadas a gente gosta de problematizar, cá estou eu trazendo algumas questões para a gente pensar sobre Rogue One, filme querido por muitas pessoas. Não tão querido por quem faz este site.

Sim, visualmente Rogue One é um dos mais lindos filmes de Star Wars. SIm, o elenco é bom. E sim, ele consegue explicar um dos maiores buracos do primeiro filme (em data de lançamento, óbvio!). Só que longe de ser perfeito ele tem alguns sérios problemas, e um dos maiores é o falso protagonismo feminino.

O texto contém spoilers leves

Durante toda a ação de marketing a personagem Jyn Erso parecia a óbvia protagonista do filme. No trailer ela aparecia com falas interessantes e fortes, parecendo que como em The Force Awakens teríamos mais uma mulher incrível nas histórias de Star Wars. Bem, não foi isso que aconteceu.

Uma dentre as inúmeras coisas que me incomodam é que a Jyn Erso não é de fato protagonista da sua própria história. SIm, ela está no coração da trama e em boa parte da ação, mas faz parte de uma série de mulheres dentro do cinema que simplesmente seguem o fluxo ou o direcionamento que outras pessoas tomam para a sua vida.Erso é passiva, não toma grandes decisões por conta própria. Ela não tem como meta salvar o pai, ela não pensa em vingar a mãe, ela não deseja lutar contra as injustiças que todos passam. Pode acabar fazendo praticamente tudo isso, mas durante boa parte do filme, nada é de fato uma escolha. É apenas uma forma dela conseguir sobreviver. Alguns até podem argumentar que ela que acaba conseguindo enviar a mensagem que chega para a Princesa Leia, mas a verdade é que pra chegar nesse ponto Jyn não decide basicamente nada, porque até quando ela realmente “escolhe” ir lutar, a jovem está seguindo as orientações do pai.

Para piorar constantemente ela é salva pelo Cassian, o que não fica muito longe das personagens que vemos o tempo  todo, sempre precisando ser salvas pelo herói. Sim, a Jyn deveria ser a heroína de Rogue One, mas o filme a coloca em uma posição onde a sua“força” de caráter, de luta, de potencial, na prática nunca é suficiente; e deixa subentendido que ela precisa de um macho alfa para resolver o que não é capaz. Até no final, quando ela finalmente vai conseguir fazer algo por mérito próprio, a narrativa faz com que precise ser mais uma vez salva por Cassian, que aparentemente já havia dado adeus ao filme.

E o mais irritante é que vendem a Jyn como uma protagonista empoderada, em um filme empoderador para mulheres. E Rogue One não é nada disso. A protagonista não é tão protagonista assim. Até o tempo de tela dela é praticamente igual ao do personagem do Diego Luna, e ele acaba tendo mais impacto para a narrativa.

E para complicar mais ainda é um filme onde mal existem mulheres, e as que existem possuem poucas falas significativas. Enquanto isso a quantidade de homens importantes na trama é gritante. E não foram apenas as personagens secundárias. A Jyn tem menos falas que o Cassian, e isso não tem a ver com personalidade da personagem. É descaso puro e simples. Ou vontade de tirar protagonismo de mulher.

Outra coisa para se pensar é que vários dos homens que essa história de Star Wars possui poderiam ser substituídos por uma mulher. No fim não faria nenhuma diferença no contexto geral, mas preferiram deixar o número de mulheres praticamente nulo. Rogue One foi um dos filmes com menor número de mulheres dos lançamentos de 2016.E pensar que é o mesmo universos que nos presenteou com Rey.

E qual a conclusão a que chegamos? Que não basta ter uma mulher aparecendo em quase todas as cenas para ser um filme com protagonismo feminino. Tirar as falas, a força, deixá-la à mercê de homens, transformá-la em passiva e não permitir a presença de mais mulheres ao seu redor reduz a ideia de empoderamento. Muitas vezes chega a ser um deserviço.

 

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