O problema com as capas de livros escritos por mulheres

 

Recentemente saiu a notícia que vão adaptar o livro O Segredo do Meu Marido, da Liane Moriarty, mesma autora de Big Little Lies, e que a atriz Blake Lively fará parte do elenco. Até aí tudo bem. Muitas pessoas empolgadas, outras nem tanto. Nada incomum quando sai uma noticia sobre uma adaptação literária para um formato audiovisual. O que me fez parar para escrever o texto foram alguns comentários masculinos sobre o título do livro e sua capa nacional. Homens avaliando o conteúdo da obra sem ler e desmerecendo porque na capa existe uma flor rosa e temos o nome marido no título. Logo estavam comentando sobre como deve ser livro de mulherzinha.

Deixando de lado o fato de que ser mulherzinha não é algo ruim e que já passou da hora desse termo parar de ser usado como ofensa, me cansa perceber que os anos passam e o machismo continua impregnado em todas as esferas sociais.

Sempre fico incomodada quando as pessoas classificam um livro como para mulheres porque ele possui uma capa com tons mais claros, traços mais delicados e imagens de ambientes idílicos. Também existe o problema inverso, quando definem como masculino se aparece uma arma, possui cores mais escura ou uma mulher seminua completamente objetificada. É óbvio que um livro não deveria ser julgado pela capa, mas sejamos honestos, todo mundo já parou para ler a sinopse por conta de uma capa que chama atenção. Algumas pessoas nem a sinopse leem, apenas compram o livro porque gostaram da embalagem mesmo.

Há alguns anos a autora Maureen Johnson fez um comentário no Twitter sobre suas capas de livros, após um leitor reclamar delas serem muito femininas. Tudo acabou se tornando uma ação comparando capas de livros escritos por mulheres e como elas seriam se seus escritores fossem homens. O resultado foi impressionante e deixou claro que muitas vezes a indústria literária não se preocupa em passar a verdadeira ideia do livro, e sim, deixar claro que é uma literatura feita por mulheres para mulheres, independente da idade.

Nem todas as autoras escrevem comédias românticas, mas até as obras de suspense acabam por ter capas que vendem a história como se fosse algo leve e muito feminino, porque o pensamento coletivo que se têm na indústria literária – e não apenas nela, infelizmente – é de que mulheres são iguais, delicadas e gostam de coisas assim, o que sabemos ser algo completamente absurdo.

É um problema que se estende além do Brasil. Em vários lugares do mundo a situação é a mesma. Capas de livros sobre mulheres, escritos por elas e que não refletem o que está em seu interior. E homens que julgam o livro pela capa acreditando que, já que a obra foi escrita por alguém cujos cromossomos sexuais são XX, não é boa o suficiente.

Existem muitos problemas de gênero dentro do universo literário, mas se pararmos apenas para focar nas capas de livros encontraremos muito mais questões do que se pode imaginar. Da objetificação feminina ao estereótipo de gênero, os problemas são grandes e a forma como nós olhamos para a embalagem do nosso entretenimento literário reflete na forma que as editoras nos entregam os livros. Talvez não incomode todo mundo, mas eu sei que me incomoda.

3 comentários em “O problema com as capas de livros escritos por mulheres

  1. A mim também incomoda muito, Carissa. Nunca dei bola para os livros da Liane Mortiarty justamente porque as capas e os títulos são totalmente “mulherzinha”. Só me interessei em ler “Pequenas grandes mentiras” por causa da série de TV. Se não fosse por isso, teria deixado de ler um livro ótimo. Já passou da hora de pensarem em capas que tenham a ver com a história em vez de dividirem os títulos apenas como “para mulheres” e “para homens”.

  2. O que me “consola” é que somos tão fodas que também somos a maioria leitora. Homens só servem para criticar, nem para ler e argumentar como gente, eles são capazes hahahaha
    Muito bem colocado seu texto, me fez refletir muito.
    E como autora, já tinha percebido o quanto livros escritos por homens são bem vistos, inclusive, na chamada “alta literatura”, um termo usado com o único intuito de segmentar ainda mais, óbvio. Prêmios, e etc, raramente incluem mulheres escritoras. Uma tristeza, principalmente pela quantidade de livros escritos por mulheres que existem hoje em dia. Um disparate embasado em preconceito de gênero.

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