Alien: Covenant e o que se perdeu no caminho

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Horror é um gênero elegante: ele precisa ser mais mutável que outros gêneros, já que precisa refletir os medos de um povo e… medos mudam. Consequentemente, narradores precisam buscar dentro desse imaginário coletivo, elementos que causem repulsa, pavor e receio para que – em cima deles – possam criar a história.

Não é raro que filmes de horror, na verdade, sejam sobre outra coisa.

E Alien é uma analogia a estupro.

E não qualquer estupro: o estupro masculino oral com uma subsequente gravidez não desejada.

Se jamais houve um filme capaz de permitir que os homens sintam algo próximo do pavor cotidiano sentido por muitas mulheres no mundo, esse filme era O Oitavo Passageiro.

“Olhem, é uma analogia para o que nós passamos. É com essa repulsa e receio perene que a gente vive. Sente o desconforto? Ainda quer dizer que é besteira?”

A analogia era poderosa. Com Covenant,  o novo filme da franquia, no entanto, ela parece ter se perdido.

Ainda há algumas referências a estupro e concepção masculina mas que não funcionam tão bem quanto no passado. Nessa filme, ao invés do Facehugger fálico especificamente desenhado para expor o público masculino ao mesmo pânico visceral a que frequentemente são submetidas as mulheres – e não apenas em filmes -, temos o pólen.

O pólen.

Muito assustador.

A única cena em que o Facehugger realmente aparece sequer dura mais que alguns segundos.

E, enquanto os homens aparecem em desconforto aqui e ali,  as mulheres do filme são brutalmente assassinadas, engolidas vivas, cabeças arrancadas, incendiadas, ou – Hollywood adora essa – mortas nuas no chuveiro.

O filme realmente tem uma representatividade interessante: o elenco diversificado de mulheres e o casal de mercenários homossexuais. MAS, rapidamente o Princípio da Smurfette está de volta, já que as mulheres do filme morrem em uma velocidade absurda (algumas covardemente se voltando umas contra as outras) enquanto os homens perduram como modelos de estabilidade por boa parte do filme.

Ótimo jeito de ser representativo.

É uma pena ver uma franquia que começou como modelo de empoderamento, criando precedentes e abrindo caminhos, se perder na mesmice com repetições mal-feitas de conceitos que já foram inteligentes .

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