O verdadeiro culpado pelo cancelamento de Sense8

 

Há poucos dias, foi anunciado o cancelamento de Sense8, uma das séries originais Netflix mais queridas dos brasileiros. Contava a história de oito pessoas, separadas por milhares de quilômetros de distância, mas unidas por um vínculo telepático e emocional.

O seriado foi ousado em sua narrativa e ambicioso em seu formato.

Durou 2 temporadas – separadas por um intervalo de anos demais – para então ser cancelado em um episódio final que não pode ser considerado um “final” por qualquer definição.

Pelas 48 horas que seguiram ao anúncio feito pela provedora do stream, as pessoas foram ávidas em expressar seu desagrado, sua decepção e, em alguns casos, sua raiva. Alguns ainda se abraçam a possibilidade de ser apenas uma jogada de marketing, mas esse rumor não impediu uma verdadeira manifestação em massa, que não esconde sua criatividade ou intensidade ao expor seu desgosto.

Mas será que essa resposta está sendo direcionada contra o verdadeiro culpado?

Vamos fazer uma brincadeira agora.

Imagine que você é a dona de uma grande produtora americana. Você está no meio de um dia ocupado, como sempre, quando sua secretária bate a porta e diz:

– Senhora? Tenho na sala de espera duas pessoas querendo falar com você. São duas diretoras e roteiristas que ficaram famosas por fazer um filme realmente revolucionário há 15 anos! Sim, incrível! Mas, na verdade, faz uns 10 anos que elas não se envolvem em um projeto que dê lucro. Os último 4 projetos que se envolveram deram prejuízos de 50 a 200 milhões de dólares aos seus estúdios. Seu último filme deveria ter sido o primeiro de uma trilogia, mas as sequencias foram canceladas depois de um rombo de quase 170 milhões no orçamento. Pois é. Elas gostam muito de produções pretensiosas e ousadas que parecem promissoras, mas a realidade dos fatos é que são sempre pouco confiáveis no sentido retorno financeiro, bilheteria e audiência. Enfim, elas estão aí agora com uma proposta de seriado para ser filmado em vários países diferentes em uma empreitada bem ambiciosa que vai ter um custo por episódio similar ao de Game of Thrones, um dos maiores e mais caros seriados da atualidade. Posso chamá-las para entrar?

O que você diria?

Porque 9 em cada 10 pessoas provavelmente diria “avisa que eu to no banheiro, manda deixar recado” e desapareceria.

A décima pessoa foi a Netflix.

A Netflix encarou esse projeto cheio de representatividade com um potencial incrível e personagens cativantes e disse “po… bora!” apesar do currículo de suas idealizadoras.

Fez a primeira temporada acontecer, investiu na segunda.

Mas a Netflix continua sendo uma empresa em um sistema capitalista.

Uma que, apesar de tudo, segue tendo uma ótima interação com o público, apostando em ideias, roteiros e diretores que outros estúdios não investiriam, mantendo publicamente um discurso de apoio à diversos movimentos sociais (algo que deveria ser considerado o mínimo, mas infelizmente é algo revolucionário). E, acima de tudo, uma empresa com uma taxa baixíssima de cancelamento de séries originais.

Mas a Netflix continua sendo uma empresa em um sistema capitalista.

Ela não pode só arriscar em ideias legais que muita gente gosta sem ter retorno.

Ou, pelo menos, não por muito tempo.

Daí a declaração oficial da própria provedora avisando que mais cancelamentos seguiriam. É um passo lógico de uma empresa que por muito tempo apostou no inovador como ninguém mais fez.

Me dói um pouco que, com o cancelamento de Sense8, tanto ódio tenha se voltado para  Netflix quando a realidade é que, sem ela, um seriado como esse JAMAIS teria saído do papel.

A culpa – essa coisa abstrata e às vezes inexistente que sempre precisa ser atribuída a alguém pela necessidade humana de ter um rosto físico a responsabilizar – se precisa cair sobre alguém, na minha opinião, que caia sobre suas idealizadoras originais.

Duas roteiristas – no caso específico apenas uma delas – que passaram uma segunda temporada inteira prolongando eventos em um ritmo lentíssimo, ao invés de avançar de modo mais categórico na narrativa, apenas para terminar em um cliffhanger demoníaco digno de enfurecer a audiência.

Elas são experientes no mercado.

Elas estavam mais enfiadas no projeto que qualquer um de nós.

Se era uma das séries mais caras em um momento de cortes, se havia possibilidade de ser cancelada, se havia conflito na agenda dos atores, se havia problemas para renovar contratos, se havia possibilidade de queda de audiência (algo que é bem mais fácil de antecipar do que muita gente imagina, box office mojo tá aí pra provar) por que não colocar um compasso mais veloz no roteiro? Por que não fazer um último episódio com uma promessa de continuidade, mas com uma sensação de conclusão em respeito aos fãs e telespectadores?

Falta de tempo para se programar não pode ser uma desculpa aqui, não é mesmo? E nem sequer seriam necessárias mudanças muito drásticas no roteiro. Bastava adiantar os eventos do último episódio para o penúltimo e concluir a narrativa com um plano final, um reencontro e uma sugestão (não intensa) de novos problemas.

No entanto, não foi isso que aconteceu. A mim quase parece que de propósito, mas seria apenas especulação.

Acredito que agora, aos fãs da série, cabe insistir sim para que a Netflix se jogue mais uma vez em uma empreitada arriscada pelo menos para concluir o que ficou pela metade. Se não com mais uma temporada, pelo menos um longa.

Mas, aos fãs, cabe também cobrar das Wachowski que, sendo dada essa oportunidade, não fodam a audiência.

De novo.

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