Por que é tão difícil gostar das anti-heroínas da TV?

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Em 2013 o jornalista Brett Martin fez um levantamento sobre os bastidores de algumas séries de TV fechada e seus protagonistas masculinos, tridimensionais, imperfeitos, politicamente incorretos e totalmente apaixonantes. Pelo menos é o que o sucesso de séries como The Sopranos, Breaking Bad e Mad Men mostra. Parece que o público televisivo adora um anti-herói. Ele juntou tudo no livro Homens Difíceis (Aleph) e fez uma análise de como esses personagens complicados mudaram o rumo da televisão americana.

Partindo das características dos personagens principais das séries citadas e ao pararmos para analisar as maiores produções da atualidade, o que o público contemporâneo gosta de ver realmente são homens cheios de falhas, cuja moral é duvidosa e que no dia a dia ninguém desejaria ter ao seu redor. Geralmente são antipáticos, sabichões, não exatamente leais. Passam por cima de tudo e todos, não possuem empatia. A lista de defeitos é longa. Só que ao invés dessas falhas serem reprovadas, são exatamente elas que conquistam o público. E isso me faz questionar se o mesmo acontece com as mulheres.

Apesar do aumento das personagens fortes dentro das séries de TV, do protagonismo feminino que cresce a cada dia, quando observamos as maiores características das personagens femininas dentro das séries poucas são as que verdadeiramente possuem tantas falhas como os protagonistas masculinos. Não estou dizendo que todas as mulheres da TV são perfeitas, longe disso! Patty Hughes de Damages é um ótimo exemplo de anti-heroína. Annalise Keating de How to Get Away With Murder também. Só que as pessoas – de modo geral – geralmente enxergam de maneira muito diferente esse tipo de personagem quando são representados por mulheres de quando são por homens. São dois pesos e duas medidas.

O número de anti-heróis é muito maior do que o de anti-heroínas e a aceitação dos personagens masculinos pelo público é muito maior. Quantas vezes li pessoas reclamando que Jessica Jones é muito chata e que isso atrapalha a série, que a Sophia de Girlboss é muito egoísta, que a Carrie de Homeland é uma bagunça emocional. Sim, talvez cada uma dessas mulheres seja exatamente o que foi dito. E daí?

Por que é tão problemático que mulheres tenham grandes defeitos? Por que é permitido gostar de homens chatos, egoístas, emocionalmente problemáticos, mas é tão difícil aceitar essas características em mulheres? Por que as pessoas ainda estão esperando que as representações femininas mostrem personagens maternais, doces, simpáticas ou vilãs de novela mexicana?

Será por que ainda existe um consenso social de que nós, mulheres, somos pessoas dóceis, maternais, sempre sorridentes e bonitas? Que faz parte do nosso DNA sermos assim? Quantos não acreditam que uma mulher que não deseja ter filhos, que sua vida não gira em torno de um homem, que está mais preocupada em ter uma boa carreira acima de tudo, é alguém que está indo de encontro à sua genética. E por mais que algumas criadoras (ok, algumas das séries com protagonistas não tradicionais são criadas por homens também) coloquem essas mulheres imperfeitas no centro das histórias, a forma como o público lida com elas reflete todo o contexto social que ele está inserido.

Segundo a escritora Roxane Gay quando uma mulher não é adorável “o público precisa de um diagnóstico para os seus defeitos. Precisam de uma razão para tolerá-la. A simples explicação de que a personagem é humana não é suficiente.”

Então a questão da aceitação e do aumento gradativo das personagens femininas que fogem dos estereótipos de gênero tem grande relação com a maneira que a sociedade enxerga a mulher e com o quanto cada uma de nós luta por uma mudança.

E é importante uma mudança na forma como lidamos com essas personagens. Porque TV é representação social e importa na construção do pensamento coletivo, sim. E quanto mais for aceito que não apenas o homem possui o direito a ter falhas, mas nós mulheres também, maior será a nossa representatividade nessa mídia tão difundida mundialmente.

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