Gal Gadot não recebeu menos que Henry Cavill mas o machismo continua existindo

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Adoro como o Esquadrão Machismo se aproveita de qualquer engano pra dizer que feminismo tá cancelado.

A dessa semana foi o engano da matéria que relatou que Gal Gadot recebeu apenas 300 mil dólares por sua atuação em Mulher Maravilha, enquanto Henry Cavill recebeu 14 milhões por Homem de Aço.

O erro não está exatamente nos números, mas na sua interpretação.

Primeiro, é muito difícil afirmar além de qualquer dúvida o cache de um ator/atriz sem que o estúdio libere a informação oficial. Então, nos baseamos no que sabemos! E o que sabemos é que, em filmes de franquias assim, estúdios tem adotado uma política de oferecer a atores “novos” o valor aproximado de poucas centenas de milhares. Ou seja, Gadot recebeu 300 mil? É provável que Cavill tenha recebido o mesmo.

A questão é que Cavill recebeu participação nos lucros de Homem de Aço (o que engordou seu salário), assim como Gadot – certamente – também deve receber. Os valores anunciados de 300 mil X 14 milhões parecem misturar “salário base” com “salário final”.

Por isso, alguns veículos têm xingado a atuação feminista em defesa de Gadot dizendo que houve manipulação de informação. O argumento é que “14 milhões” não é o que Cavill recebeu pelo filme e sim o valor de sua fortuna ACUMULADA.

Bem… esses veículos provavelmente pegaram essa informação daqui. Ou de algum lugar similar: Artigos que analisavam o net worth (valor aproximado de uma pessoa ou negócio) de Cavill LOGO DEPOIS de Homem de Aço e ANTES de Batman vs Superman. Ou seja… quando o único filme de bilheteria pesada que o ator britânico tinha participado é o que aqui se discute.

É provável que, no fim das contas, ele tenha recebido mais de 10 milhões por Homem de Aço. No entanto… o fato é que isso NÃO foi seu salário base.

Mas o que isso significa para o feminismo? Homens e mulheres estão recebendo o mesmo por trabalhos equivalentes? Já pode colocar as cadeiras em cima das mesas, apagar as luzes e voltar pra casa?

Desculpa ser a portadora de más notícias, mas: não.

O abismo salarial em variação de gênero não desapareceu da noite pro dia porque um estúdio resolveu adotar a postura revolucionária de tratar uma mulher – vejam vocês – como um homem, e seguir a mesma política de pagamento para os dois.

Se alguma coisa, temos é que agradecer ao feminismo por nos trazer até aqui.

80 anos atrás, Mary Shelley sequer foi creditada no filme de Frankenstein (adaptação da obra de sua autoria) com seu próprio nome. Shelley aparece apenas como “Senhora Nome Completo do Seu Marido”, levantando até teorias bem fofinhas de que o trabalho, na verdade, teria sido dele.

 

80 anos depois, uma mulher é tratada com a mesma política salarial de um homem.

De acordo com a Esquadrão Machismo essa mudança aconteceu por causa de quê?

MAGIA! Porque feminismo é uma merda inútil.

Mas a gente sabe que não é assim.

A gente sabe que o pouco que se conquistou foi com muita luta, muito textão problematizador e muita necessidade de respirar fundo para não encher alguém de tapas no meio da rua.

E, embora – até aqui – Gadot esteja bem, isso não é o costume na indústria.

No começo do ano, Natalie Portman chamou a diferença salarial em Hollywood de “loucura”. Em 2011, ela ganhou UM TERÇO do salário do seu co-protagonista Ashton Kutcher, no romance Sexo sem Compromisso. E isso porque ela tinha ACABADO de ganhar um Oscar, enquanto Kutcher… bem…

Em uma entrevista a revista Marie Claire, Portman disse que “Comparado aos salários dos homens, mulheres ganham 80% na maioria das profissões. Em Hollywood, elas chegam a ganhar 30%”

Em 2015, quando vários emails da Sony foram hackeados e divulgados, a surpresa se fez ao percebermos que outra vencedora do Oscar, Jennifer Lawrence, recebeu bem menos que seus colegas por um trabalho equivalente. Amy Adams também, por sinal.

Estamos falando de atrizes excelentes, bem cotadas no mercado, ganhadoras de prêmios… recebendo menos que homens pelo mesmo trabalho.

É real.

O fato de não ter acontecido com Gadot não diminui a realidades dessas – e pior – de outras mulheres que estão entrando no mercado e ainda não construíram nome, tendo que lutar ladeira acima enfrentando as diferenças entre os gêneros.

Se Mulher Maravilha foi uma exceção à regra, não significa que o feminismo esteve de mimimi. Pelo contrário, significa que o feminismo estava certo todo esse tempo e, finalmente, está começando a reverter o cenário.

Outra mulher que o Esquadrão Machismo adora usar como token é Scarlett Johannson.

A atriz que interpreta a Viúva Negra é uma das mais bem pagas em Hollywood (não, ela não ganha 20 milhões por filme, ou mais que Evans e Hemsworth juntos, isso é lenda) chegando a receber o mesmo que seu colegas de longa, sem problemas. Logo, ela não serve de parâmetro como ela mesma disse.

Mas é bem típico não é?

Se UMA mulher ganha igual, então TODAS as mulheres têm que calar a boca.

E é isso que está acontecendo com Gadot: Uma exceção sendo usada para inverter o valor da regra e nos mandar calar a boca.

O que eles têm dificuldade em compreender é que o feminismo é composto de mil problemas diferentes que envolvem o gênero de modo geral. Não a conta bancária de uma única mulher.

A diferença salarial existe. Nós sabemos.

Então, corremos em defesa de Gadot porque sim. Porque sempre.

Foi engano? Ok.

Um problema a menos.

Ainda temos que cuidar dos outros 999.

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