Antes Que Eu Vá e o respeito à narrativa adolescente

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Histórias de adolescentes no high school não são uma novidade no cenário hollywoodiano. Filmes sobre e para adolescentes são uma grande fonte de renda para a indústria cinematográfica americana. Nos últimos anos alguns filmes para esse público jovem com a temática do bullying foram lançados e fizeram certo sucesso. “Antes Que Eu Vá”, a primeira vista, pode ser considerado apenas mais um filme que segue esse padrão, mas não necessariamente é.

Adaptado do livro homônimo da Lauren Oliver, o filme conta a história de Sam, uma adolescente popular, bonita, cheia de amigos, um namorado que chama atenção. Só que essa aparente perfeição tem um final abrupto quando ela sofre um acidente de carro junto com suas amigas. Segundos antes de morrer ela perde a consciência e acorda no mesmo dia do acidente, tendo a chance de reviver tudo o que aconteceu no que seria o dia da sua morte. E talvez mudar o final.

Sim, “Antes Que Eu Vá” não possui uma premissa verdadeiramente inovadora. Ainda assim, é curioso como o livro que deu origem ao filme consegue ser diferente da maioria das histórias adolescentes que vemos por aí. E isso acontece por conta da escrita da Lauren Oliver, autora do livro, que consegue pegar uma premissa simples e transformar em algo profundo e poético. Além do fato dela não romantizar a adolescência, muito menos os praticantes de bullying e a dor que eles infligem às outras pessoas; conseguindo assim atingir seu público-alvo, que são exatamente os jovens que vivem as experiências que são retratadas na história.

A diretora do longa, Ry Russo-Young, uma jovem cineasta de filmes independentes, tenta transportar para a tela a profundidade e a poeticidade que são encontradas no livro. E apesar de não conseguir ser tão profundo, o filme consegue em suas belas e encantadoras imagens cheias de luz natural, na movimentação da câmera e na trilha sonora, trazer um pouco da poesia que a escrita da Lauren possui. Sua direção é inteligente. Em nenhum momento ela tenta negar os clichês do gênero e, na verdade, os abraça; mas faz isso de uma maneira onde é possível utilizá-los sem perder sua personalidade como cineasta. E essa é uma das maiores virtudes do longa.

Sem se preocupar em ter uma temporalidade rápida demais, como na maioria dos filmes feitos para adolescentes, Ry não tem medo de deixar “Antes Que Eu Vá” levar seu próprio tempo para que a história se desenvolva, permitindo as repetições de cenas em looping pela protagonista ao voltar sempre a viver o mesmo dia, só que usando ângulos e planos diferentes. O filme também não ironiza essa fase da vida, na verdade trata com respeito a dor e os problemas comuns a essa faixa-etária.

Um ponto interessante é que apesar de muitas vezes em filmes adolescentes existir uma protagonista feminina, com ela vem sempre uma carga de competitividade com alguma outra mulher ao redor. “Antes Que Eu Vá” mostra a experiência da amizade feminina de maneira mais realista, com uma representação que condiz com o que é ser uma jovem mulher.

O longa não é uma obra prima, mas definitivamente possui qualidades. É um filme que respeita seu público-alvo, conta uma história bonita, é bem dirigido, possui uma fotografia linda. As interpretações são convincentes, apesar de não serem marcantes. É um daquelas adaptações que, por mais que não possuam a força da obra original, conseguem captar o essencial para a tela.

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