[Crítica] A Coisa: a excelência da narrativa e a ausência do sombrio

 

“Quero assistir esse filme de novo”

Foi o primeiro pensamento que tive com a rolagem dos créditos da nova adaptação do livro de Stephen King. Considerando que – apesar do meu amor pelo gênero – esse não é o tipo de pensamento que me ocorre ao fim de um filme de terror, imaginei que fosse um bom sinal.

A premissa do filme é bem conhecida: uma pequena cidade sofre os ataques de uma entidade sobrenatural (carinhosamente apelidada de “Coisa” por algumas de suas vítimas), capaz de transformar-se naquilo que seu alvo mais teme, acordando de sua hibernação a cada 27 anos para alimentar-se de medo. Por sua natureza inocente, crianças se tornam um objetivo mais fácil para A Coisa que passa a caçá-las, até que os desaparecimentos infanto-juvenis multipliquem-se como uma epidemia.

Essa percepção leva um grupo de amigos – autointitulado “Clube dos Perdedores” ou “Otários”, dependendo da tradução – a perseguir seu algoz sobrenatural para tentar matá-lo, salvando suas vidas e a de outros. Neste ponto, as narrativas do livro e do filme se separam, já que o livro mostra duas linhas do tempo paralelas:

1 – o Clube, quando crianças, enfrentando A Coisa pela primeira vez,

2 – o mesmo Clube (quase completo), quando adultos, voltando a sua pequena cidade quando A Coisa acorda novamente.

Pelo trailer, já havia a suspeita de que a história seria dividida, já que não víamos a versão adulta do Clube em nenhuma sequência. Essa suspeita é confirmada, não apenas pelo próprio filme ao mostrar apenas metade do livro, mas também com os créditos que anunciam “A Coisa” como o “Capítulo I”.

Essa divisão – ao meu ver – foi uma excelente escolha narrativa. Ao contrário de histórias como… digamos… O Hobbit, A Coisa realmente tem material para mais de um filme. Eu iria além até, e diria que tem material que não seria suportado por apenas um filme. Colocar todas as quase mil páginas de King em 120 minutos iria se traduzir em um desenrolar sobrecarregado e confuso que nos faria gastar linhas em ofensas ao invés de em elogios.

Fora isso, a adaptação foi tão fiel ao material que a inspirou quanto um filme poderia ser, permitindo-se as liberdades apenas onde seriam necessárias devido a diferença de mídias e ao limite de tempo. Não houve eventos gratuitos: tudo que o roteiro nos apresentou foi preciso para compreensão da história e explorado novamente em outro momento.

A apresentação dos personagens foi uma coisa divina por si só. Preocupava-me como um roteirista faria para apresentar os sete protagonistas do Clube, explicando suas individualidades, e ainda assim conseguir contar a história que nos foi prometida.

Quero dizer… Esquadrão Suicida existe para provar que apresentar vários personagens E contar uma história no mesmo tempo de tela pode ser uma missão, com o perdão da gracinha, suicida.

A Coisa, no entanto, tem um sucesso pleno, atingindo até o nível de deixar os espectadores tristes porque o filme não teve mais tempo, afinal todos queríamos ver mais um pouco dos comentários do Richie, da persistência do Bill ou da coragem de Bev.

Mas principalmente os comentários de Richie.

Finn Wolfhard – mais conhecido pelo seu papel de Mike no seriado “Strager Things” – está uma maravilha de assistir. Ele rouba a cena do filme até de seus protagonistas – seja o Bill ou o Pennywise – e nos traz alguns dos momentos mais divertidos, empolgantes e memoráveis da história. Embora todo o elenco mirim esteja magnífico em seus papeis, eu realmente acho que o Wolfhard merece uma menção honrosa porque sua capacidade superior de atuação é perceptível, principalmente nas cenas que os personagens estão todos juntos. Sua naturalidade diante das câmeras se destaca de um jeito gostoso e o personagem combinou perfeitamente com ele.

Falando em “personagens todos juntos” e “boas modificações de roteiro”, é preciso abrir um parenteses para garantir aos receosos que: não, a cena da orgia de crianças no esgoto foi devidamente retirada do filme. Essas imagens grotescas vão ficar gravadas apenas para nós que lemos os livros. O público exclusivo do filme não vai precisar ser confrontado com essa revolta de estômagos, mais uma – das muitas – decisão acertada dos roteiristas, na minha opinião.

O filme não seria engradecido com essa cena e não perdeu nada sem ela.

O alívio cômico do filme é utilizado de um modo pontual e serve como reforço para a natureza dos seus personagens, enquanto a relevância da história engaja mesmo aqueles que não são fãs do gênero.

O  Bill Skarsgard está fantástico como Pennywise e interpreta através de sua forte maquiagem, dando ao Palhaço Dançante não apenas a alcunha de Vilão, mas também uma personalidade marcante e notável.

Eu respeito o filme de terror que não depende exclusivamente de ambientes escuros e fechados para funcionar e o Andy Muschietti, na minha opinião, perde apenas para Robert Eggers em A Bruxa, quando o assunto é filmes de terror que conseguem passar a sensação de claustrofobia mesmo em campo aberto e sob a luz do sol.

Como exemplo, a cena em que uma das crianças derruba seus remédios pelo asfalto, em frente a uma casa que sabemos ser suspeita: toda a sequência se passa no quintal iluminado da casa, mas  o grito de “Corre, menino!” não está muito longe de nossas gargantas em nenhum segundo. Maestria na execução.

E não apenas de horrores sobrenaturais vive o filme. A história nos traz também as problemáticas pessoais e psicológicas sofridas pela maioria das crianças, contribuindo para a tensão que se prolonga inteligentemente ao longo do filme, executando sequências em que os protagonistas saem da panela para cair no fogo, fugindo de um problema pavoroso apenas para dar de cara com outro – talvez – ainda pior.

No entanto, apesar de todos os meus elogios e da minha verdadeira admiração por essa história, eu não consegui tirar da boca o gosto “Sessão da Tarde”.

Isso não é necessariamente ruim, mas, ao assistir algo inspirado na obra de King, eu não espero que “aventura para a família inteira” seja algo que eu possa usar na descrição. No entanto, A Coisa é uma diversão para quase a família inteira. Jumanji já nos ensinou que crianças não têm problemas em enfrentar monstros. A parte os palavrões ou as crianças muito pequenas e facilmente assustáveis, esse é o tipo de filme que eu recomendaria para quase qualquer idade.

A mensagem de “vença seus medos” é um infanto-juvenil esperando pra acontecer e a reunião de crianças com tacos de baseball para bater em um inimigo tem um cheiro de 3 Ninjas em Apuros ou Esqueceram de Mim que eu não consegui ignorar.

A parte gráfica do horror – embora indispensável em um filme de monstros – começou rápido demais. O primeiro diálogo de Pennywise com o jovem Georgie na icônica cena do bueiro foi de um teor macabro digno de levar a arrepios… até a mandíbula de Pennywise projetar-se em suas muitas fileiras de dentes. O macabro suave deu lugar para o visual e evidente muito depressa no começo do filme e, embora isso certamente é algo que agrada a muitos, eu acredito que o filme não teria perdido em guardar alguns de seus recursos para um pouco mais tarde.

Com isso, muitas das cenas de horror acabam tornando-se repetições. O modo como o Palhaço corre em direção a suas vítimas é assustador, mas o efeito é idêntico em duas ou três ocasiões de modo tão vil que, na próxima vez que a música é interrompida diante de Pennywise, nós já antecipamos o que vai acontecer. Exatamente como vai acontecer. Roubar o espectador do elemento surpresa em uma cena de suspense é um crime difícil de perdoar.

O monstro que desaparece do quadro (ou slide) para aparecer, de verdade, atrás de você é bem típico de King (Alguém lembra do “Vírus da Estrada vai para o Norte”?) mas é outro recurso que o filme repete. Foi legal quando aconteceu em A Coisa pela primeira vez, mas na segunda… nem tanto. Eu me peguei apertando os joelhos e orando para que Muschietti não fosse cachorro de um truque só, porque eu realmente estava curtindo a experiência.

As repetições não são suficientes para irritar, mas estão presentes e incomodam o olhar mais meticuloso, o que acabou por prejudicar a natureza sombria do filme. É uma história de horror com um clima leve e sem muitas inovações. Quando Pennywise fica visivelmente triste por não conseguir inspirar medo em uma determinada vítima e o cinema inteiro se derrete em uma comoção coletiva de “own” e “coitadinho”, você percebe que o monstro não é mais tão monstruoso assim.

O que, repito, não é ruim. É uma boa cena, mas o preço é cobrado em redução do sinistro.

É um filme que eu recomendo. Para assistir muitas vezes inclusive. Mas chamá-lo de “melhor horror do ano” me parece um pouco demais. Tivemos Corra! e Ao Cair da Noite, ambos bastante consagrados, além de Mãe! que chega ainda esse mês e promete fortes emoções.

E não vou nem argumentar contra o comentário de “melhor filme de horror da década” que ouvi de alguns.

Para vocês, eu só tenho duas palavras:

A Bruxa.

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