[Crítica] Afterimage e a política na arte

 

Afterimage foi o último filme do polonês Andrzej Wajda e o longa não poderia vir em momento mais propício que nesses tempos sombrios que o nosso país e o mundo vivem. Em uma época onde parecemos retroceder e temos neonazistas sendo defendidos e a arte sendo censurada, precisamos de obras cinematográficas que exponham os outros momentos em que ser artista e fazer uso da sua arte para conscientizar as pessoas, para questionar o sistema vigente, também acabou como motivo de censura. E o quanto essa postura é prejudicial para a sociedade.

O longa conta uma parte da vida do artista plástico polonês Wladyslaw Strzeminski, formulador da Teoria da Visão e grande nome da arte do país. Na época em que o filme se passa, o pintor era um dos maiores nomes da arte polonesa, benquisto por seus alunos na Academia de Belas Artes e em todo o meio artístico; mas isso se altera quando mudanças políticas fortes começam a ocorrer.

Em pleno regime stalinista, Wladyslaw fazia oposição ao “Realismo Socialista”, que na prática era uma política de Estado, proibindo qualquer manifestação artística que não tivesse viés ideológico (e compatível com o comunismo stalinista), que mostrasse luta de classes. Qualquer obra que não fosse uma incitação aos ideais de Stalin era considerada contra o modelo ideológico. Por conta de sua produção artística construtivista Strzeminski foi pouco a pouco perdendo sua influência no país, suas obras retiradas de exibição, perseguido, até o ponto de se ver sem trabalho e dependendo da ajuda dos outros.

O diretor usa a vida de Strzeminski para fazer uma crítica forte ao período que a Polônia passou, contra o totalitarismo, a falta de liberdade criativa e de expressão. O título Afterimage que remete a imagem que se fixa na mente mesmo não sendo mais observada tem relação com o que o se passa durante todo o longa. Independente do quanto os agentes do governo tentem apagar a arte que já existia, eles não conseguem, porque mesmo sem a obra física ela já está fixada na memória.

O maior problema do longa, que é muito bom, é que como cinebiografia acaba pecando um pouco, deixando algumas pontas soltas da vida do artista. Não é nada que atrapalhe de verdade, mas teria sido interessante entender melhor como o Strzeminski chegou ao patamar que chegou, ou sua relação com a ex-mulher e a filha, esta sendo apenas um acessório durante a trama. Ainda assim o recorte que o filme faz traz diversas questões que se relacionam com a intolerância que o mundo vive, seus problemas políticos, servindo assim como uma excelente forma de questionar até que ponto a política deve interferir na arte, e o quanto já estamos vendo e deixando isso acontecer. Por que a arte tem e muitas vezes deve ser política, mas a política não deveria interferir na arte.

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