[Crítica]A Negra De… e o cinema africano

 

A Negra De… é a terceira obra (apesar de primeiro longa) do realizador do Senegal, Ousmane Sembene. O filme retrata as agruras de Diouana, uma jovem senegalesa que vai trabalhar na casa de um casal francês que conheceu em sua cidade, onde cuidava dos filhos deles. Cheia de sonhos, acreditando que irá construir uma vida melhor dentro do país europeu, acaba enxergando na prática que a realidade é muito diferente do que existia em sua imaginação. Ela é explorada, sem poder sair de casa, trabalha como uma escrava. Seu salário mal chega às suas mãos. E ainda escuta todo tipo de abusos da patroa. Pouco a pouco sua relação com a mulher branca vai ficando intragável, e quanto mais complicada se torna a sua relação com sua patroa, mais deprimida Diouana vai ficando, até a situação não ter mais conserto.

Baseado em um conto do próprio Ousmane, que para escrevê-lo se inspirou em uma história real, A Negra de… é um filme que deseja tratar sobre dualidades, o que claramente fica explícito na escolha de não filmar usando nenhuma cor além do preto e do branco. E o contraste entre as duas cores é bastante explorado pela fotografia, da mesma maneira que a protagonista é explorada o tempo inteira pela patroa.

É interessante observar que Ousmane em 1966, ano de lançamento do filme, resolveu trabalhar com mais de uma questão importante socialmente: a questão dos negros africanos colonizados pelos franceses, e o papel da mulher negra mediante a mulher branca, porque sim, existe um retrato da opressão feminina negra pela mulher branca, também oprimida socialmente. Ainda assim fica claro que a questão feminina não é o ponto central, o diretor trata do tema de forma assertiva, mas a questão entre as classes, a exploração do colonizador ao africano é seu maior ponto de discussão.

Outro ponto sobre a questão feminina e que se relaciona com o tema central da obra tem relação com o título. A Negra do nome do filme é de algum lugar? Ela é de alguém? Em algum momento ela é dela mesma? Durante o tempo em que viveu trabalhando para o casal ela realmente foi dona do seu corpo, dos seus desejos, ou foram eles que passaram a dominá-la?

Ousmane Sembene, em sua filmografia, sempre trabalhou com as questões da desigualdade social, do sistema injusto das classes. Em Borom Sarret, curta do cineasta, ele trata dos antigos assentamentos dos brancos sendo habitados pela nova elite negra dominante, influenciada pelos costumes colonizadores brancos. É um assunto recorrente nos filmes que fez.

Na obra analisada ele não tenta em momento algum esconder sua crítica à forma como os negros da África são obrigados a lidar com o racismo e a exploração que vem atrelada por parte dos brancos, que se sentem superiores ao povo africano.

É interessante observar como o casal de brancos não consegue ter verdadeira empatia pela Diouana, porque eles não a enxergam como uma pessoa, com sentimentos. A jovem mudou de continente, está longe da família e de toda a sua cultura, trabalha noite e dia; mas os brancos acreditam que são bons com ela, apenas por que a tiraram do seu ambiente, que na cabeça deles é um local inferior. Eles a veem como uma coisa, uma propriedade, um objeto inferior a eles que são bem educados, possuem a pele clara e são de um país desenvolvido.

O cinema africano, de modo geral, gosta de tratar dos problemas urbanos. Um dos temas centrais é a jornada, sendo muitas vezes do campo para a cidade grande. É exatamente o que acontece com Diouana, que sai do seu ambiente natural para a França, onde não passa de um ser “exótico” e que serve para os franceses.

O filme também questiona como esses mesmos brancos que machucam, que não dão valor à cultura africana e ao povo africano são capazes de apropriação cultural, muitas vezes sem nem perceber. Toda a simbologia que a máscara que a Diouana inicialmente dá para o casal quando a contratam, mas que depois luta para conseguir de volta é uma ótima analogia a isso. A jovem quer salvar o que resta da sua cultura das mãos dos colonizadores que aparentemente são bons, mas na prática só trazem dor e sofrimento.

A Negra de é um entre muitos filmes que mostram a realidade africana. Filmes importantes historicamente e com boa concepção visual, boa direção. Filmes bem feitos e que merecem ser vistos.

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