[Crítica]Mãe! e a megalomania de Darren Aronofsky

Talvez o único consenso no debate sobre Mãe!, novo filme do Darren Aronofsky, seja que não existe consenso. As respostas do público variam entre o amor e o ódio desde as primeiras apresentações em festivais.

Mãe! é um filme que, sem dúvidas, inspira emoções fortes. Mas, elas nem sempre são de admiração e surpresa, afinal “decepção” e “desgosto” são emoções fortes também.

Ao contrário do público geral, aqui no editorial do Malcriadas tivemos um consenso e, por isso, decidimos escrever essa crítica juntas, misturando nossas indignações em uma crítica única.

Segue assinada por nós duas a reflexão abaixo.

ATENÇÃO! O texto contém spoilers!

 

1 – A Alegoria

Nós entendemos o filme.

Parece-nos problemático ter que começar uma crítica fazendo esse tipo de afirmação, mas, considerando que um dos argumentos mais recorrentes dos defensores de Mãe! é que “se a pessoa não gostou, é porque não entendeu”, achamos de bom tom reconhecer que há um elefante no quarto e nos dirigir a ele.

Nós entendemos o filme.

Reconhecemos que, como tantas pessoas, tivemos interpretações além daquela que o diretor afirma ter sido a sua.

Marcel Duchamp, em seu texto “O Ato Criador” diz que

“o ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades intrínsecas e, desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato criador”.

O público, ao ver (ler, ouvir ou sentir) uma obra artística, vai interpretar à sua maneira; muitas vezes decifrando-a de uma forma completamente diferente da que o criador pensou. E isso faz parte da experiência.

Apesar de compreender isso, no entanto, para essa discussão, vamos nos ater a alegoria que o diretor apontou como “sua”: de que o filme simboliza o impacto de ações humanas na natureza, contada através de uma releitura bíblica.

Se resumirmos a ópera é isso que encontramos: Aronofsky relê a Bíblia – do Gênesis ao Novo Testamento – mostrando Deus e Mãe Natureza criando o Jardim do Éden/Mundo, para receber o Primeiro Homem (Adão) e a Primeira Mulher (Eva), que maculam o único fruto proibido (na forma do escritório do poeta e seu cristal). Depois Caim mata Abel em sua competição pela atenção do pai, o mundo é tomado por humanos inconsequentes e se acaba nas águas do Dilúvio. Seguimos então para o Novo Testamento, e a releitura assume a narrativa do nascimento e morte de Jesus Cristo. Tudo isso enquanto Aronofsky divaga sobre o ego do artista, a invasão do público ao privado, a obsessão religiosa e, é claro, as mudanças climáticas (?).

Sem dúvida, para muitas pessoas tudo isso pareceu genial e revolucionário.

Nós pedimos licença para discordar.

Acho difícil até defender o uso da palavra “alegoria” no contexto de Mãe! já que “alegoria” seria representar algo de forma figurada, e o que o diretor nos apresenta é bem mais literal: o poeta encerra o filme citando as Escrituras ao dizer “Eu sou quem Eu sou”. Ele é Deus, percebe, de modo literal… não figurado.

Mãe! não nos parece tanto uma alegoria.  Mãe! nos parece uma releitura da Bíblia. E, uma releitura – em nossa opinião – boba, simples e cheia de falhas.

Aronofsky fez pouco mais que reproduzir a narrativa bíblica: “Como seria se tudo isso tivesse acontecido dentro de uma casa?”.

As escolhas que ele faz para sua analogia são sempre diretas e pouco poéticas. Veja bem: nada de errado com um cano estourado ser usado para representar um Dilúvio. É uma analogia válida. Mas entre “válida” e “genial” há um abismo.

Pergunte a uma criança de dez anos como ela representaria um dilúvio dentro de uma casa e é possível que “cano estourado” esteja entre suas duas ou três primeiras respostas. É nesse sentido que nossa opinião é de que as escolhas “alegóricas” de Aronofski foram quase infantis.

Também faltou coesão em sua alegoria.

O Deus do Velho Testamento Aronofskiano é pacífico, permissivo e misericordioso; o que não é coerente com a realidade bíblica. O Deus do Novo Testamento é o pacífico, mas o do Velho Testamento jamais seria tão complacente com Adão, Eva ou Caim.

Eva é uma personagem que merece atenção especial. O filme a apresenta como tentadora e manipuladora, o que pode ser considerado coerente com a personagem bíblica que realmente incentiva o Homem ao pecado, mas está ausente da narrativa a figura da serpente que a manipulou. A Eva do Aronofsky possui os traços da serpente e da mulher, como se fosse uma simbiose das duas personagens, o que pode ser lido igualmente como uma crítica ao machismo ou como um reforço.

Algo similar acontece com a “Mãe Natureza” – que não é entidade bíblica – quando ela surge como figura central em antítese ao comportamento humano: a Mãe Natureza é aquela que precisa ser protegida dos humanos que querem destruí-la. No entanto, no meio da narrativa, Mãe Natureza assume as vestes da Virgem Maria, uma humana, o que significa que Aronofsky mistura dois elementos centrais de sua crítica em um único personagem, mais uma vez. Agora, no entanto o conflito é ainda pior: Quem é a personagem de Jennifer Lawrence? A representação do humano ou o seu oposto? Não dá pra ser os dois…

A alegoria – se vamos chama-la assim – é fraca.

Não sobrevive a um escrutínio mais delicado porque ela não foi produzida com cuidado. Nos parece uma “alegoria” preguiçosa, exagerada e muito bagunçada. As metáforas sequer são discretas ou delicadas, pelo contrário. São tantas (em volume e obviedade) que deixam a história pesada e barulhenta. O diretor parece jogar um elemento em cima do outro sem nenhum cuidado, até o ponto de nem mesmo ele saber a razão de estar colocando aqueles detalhes no seu filme.

 

2 – A Mensagem

Em entrevista, Aronofsky afirmou que sua intenção com esse filme foi conscientizar o público sobre as mudanças climáticas.

Se essa foi sua intenção, achamos seguro dizer que ele falhou.

De todas as reflexões e comentários que vimos o público fazer, a conscientização a respeito do impacto humano no meio ambiente foi a mais diminuta delas.

Sim, as pessoas realmente estão falando sobre Mãe!, mas não pelos motivos supostamente propostos pelo cineasta. Ele deixou as pessoas confusas com seu filme e boa parte do público passa mais tempo tentando encontrar significados para os detalhes incoerentes da narrativa do que pensando em como o meio ambiente sofre com a forma que nós, humanos, lidamos com ele.

Além disso, Aronofsky afirmou que essa também foi sua intenção ao fazer Noé…

Quantas vezes mais esse diretor pretende falhar em expressar o mesmo tema?

Era de se imaginar que, depois de um filme desastroso, ele tivesse aprendido melhor como passar sua mensagem.

Darren defende seu trabalho dizendo que quando você tenta sair da sua zona de conforto, acaba incomodando algumas pessoas. A questão aqui é que ele não saiu da sua zona de conforto, repetindo elementos do seu trabalho de sempre.  E o filme só consegue tirar da zona de conforto, o público que não tem o hábito de assistir narrativas alegóricas. (Porque sim: entender alegoria de um filme tem muito mais a ver com hábito do que com inteligência).

Mas em um argumento ele tem razão: Mãe! incomoda. O problema é que o incômodo feito apenas para deixar o público desconfortável não tem grande validade. Se um cineasta se propõe a fazer uma obra para tirar as pessoas da sua inércia – da sua “zona de  conforto” – seria interessante ver isso ser feito de maneira consciente e com uma função. No longa do Aronofsky isso não acontece.

Durante boa parte da projeção, a câmera fica literalmente no rosto da Jennifer Lawrence, fazendo o público ter sempre o seu ponto de vista, de uma personagem cujas informações são mínimas. E isso incomoda. Também é bastante incômoda a instabilidade da câmera que treme tanto (sempre pela perspectiva da personagem da Lawrence) que irrita muito mais do que te oprime ou te deixa claustrofóbico. O filme é bem executado tecnicamente, mas isso não significa que o uso da técnica foi bem pensado. É fácil perceber que o diretor de fotografia sabe bem o seu trabalho, que o design de som é muito bem feito; mas estilização sem conteúdo se torna apenas uma casca vazia.

3 – As referências

Mãe! é um jogo de “Onde está Wally?”. Ganha quem encontrar mais simbologias e referências, e o diretor as colocou em peso.

Referências podem ser interessantes quando enriquecem a narrativa central, não quando a substituem, que é o que filme faz.

Mãe! não é uma história rebuscada que, adicionalmente, conta com algumas referências. O filme é uma história simples, mas que foi superlotada por essas referências a ponto de mimicar originalidade onde, no fundo, só existe reprodução.

Encher a narrativa de simbologias para simular intelectualidade é um truque que – pode-se argumentar – o próprio diretor já tentou nos empurrar com Pi. Funcionou para muitos uma vez. Funciona menos agora. Continuará funcionando na próxima?

Ao assistir Mãe! fica fácil perceber a influência de Polanski em filmes como O Bebê de Rosemary e Repulsão. As semelhanças com O Bebê de Rosemary são tão descaradas que Darren escolheu até “homenagear” – assim mesmo, entre aspas – o filme com um dos seus posters.

 

Não que isso seja novidade: diretores frequentemente fazem referência a suas inspirações.

O problema de Aronofsky, no entanto, é a repetição das “inspirações” mesmo quando ele escolhe não admiti-las. Mas falaremos sobre isso em um post a parte.

Ele também bebe de O Iluminado, ao colocar a figura do Barden como um escritor atormentado sem conseguir escrever. The Wicker Man, I am the Pretty Little Thing, A Casa do Bem e do Mal… a lista de filmes que “inspirou” Aronofsky é longa, e mesmo que isso não seja – por si só – um atestado contra a qualidade de Mãe!, no mínimo é um argumento contra sua originalidade.

Só que se cada um desses filmes leva suas duas horas para criar uma narrativa interessante e cheia de horror, Mãe! só junta tudo isso numa grande panela onde pouco desenvolve.

 

 

4 – As milhares de interpretações

Lembro da sensação quando terminei de assistir A Bruxa, do Robert Eggers.

Saí da sala refletindo sobre maniqueísmo. O que é o Bem? O que é o Mal? Se o Mal te faz bem, ele ainda é mal?

Ao assistir O Anjo Exterminador do Luis Buñuel, você sai pensando sobre sobre a falsa moral da sociedade, a artificialidade das máscaras sociais. Apesar de ser um filme aparentemente caótico e cheio de desordem, tudo isso tem lugar na narrativa te apontando para olhar abaixo da superfície.

Uma boa reflexão, na nossa opinião, é aquela que transcende o filme e funciona como uma fagulha para o pensamento original.

Mãe!, no entanto, parece ser uma reflexão autossuficiente que atrai o público a continuar discutindo o filme. Perceba: não uma mensagem transcendental, mas o próprio filme. Elas debatem mais sobre “o que eram” as peças do que sobre uma suposta mensagem que o filme tenha deixado. E isso diz muito do próprio Darren Aronofsky, um diretor megalomaníaco, virtuosista e pretensioso, cuja posição é bem semelhante a do “Deus” que Javier Barden apresenta.

 

O que era o remédio amarelo? Por que ela usou o mesmo pó para pintar a parede? Por que parou de toma-lo quando ficou grávida?

O que era a mancha de sangue que não se apagava? Por que ela desce ao porão? O que eram as linhas de portal que elas formavam? O que era o espaço além do porão?

Por que Adão estava tossindo sangue? O que era o coração no vaso sanitário? Por que ela deu descarga? Qual o significado do isqueiro deixado por Adão?

Cada uma dessas perguntas tem um milhão de respostas.

Nós temos pelos menos umas doze para cada.

Para alguns, isso demonstra a genialidade do diretor em deixar pontas abertas para estimular o pensamento do público.

Para nós, parece que Aronofsky criou um quebra cabeça com peças faltando e agora quer que o público monte por ele. O problema é que, o resultado dessa montagem é mérito da inteligência do público, não da inteligência do diretor.

As pontas soltas que ele deixa em seu trabalho permitem milhões de interpretações, inclusive nenhuma, inclusive opostas.

De um lado, pessoas afirmam que o filme é uma crítica a religião, do outro, pessoas afirmam que é um filme de catequese, celebrando o amor incondicional de Deus.

De um lado, pessoas afirmam que o filme é machista e opressor, do outro, afirmam que ele é feminista e empoderador. E ainda outras pessoas acham que o filme sequer se relaciona com discussão de gênero.

E quando um filme tem tantas interpretações opostas, a nós parece que não temos uma mensagem: temos uma bagunça.

O diretor quis coisa nenhuma. E se alguma coisa quis, falhou em demonstrar o que era.

E a ideia de que “talvez essa tenha sido justamente a intenção do diretor: nos fazer discutir” é muito bonitinha de entreter, mas aí precisamos discutir o que é arte.

Porque se seguirmos por essa linha de raciocínio em que quanto mais ausente for o artista do resultado de sua própria obra, mais o público poderá refletir sobre ela e mais grandioso será o resultado; então a maior obra de arte do mundo será um quadro em branco, porque nele cada um pode projetar o que quiser.

É uma conclusão que pode funcionar para muitos mas, em nossa opinião, não funciona.

Se temos uma história que o próprio diretor tem dificuldades em explicar… não temos um diálogo intencional. Temos um caos organizado para nos fazer crer que há propósito onde não há.

 

5 – As atuações

O que aconteceu com os grandes atores desse filme?

Por mais que ache a Jennifer Lawrence um pouco superestimada, ela consegue ser competente em alguns filmes, só que em Mãe! as diversas nuances que a personagem precisa ter nem sempre são mostradas na tela. Ela é sutil e contida em sua representação, bem diferente de alguns dos seus consagrados personagens, mas a sua protagonista precisaria de uma gama maior de nuances.

O Barden aparece tão canastrão no longa que nem parece um trabalho do ator. Ed Harris parece ter perdido parte do impacto que lhe é marca registrada. Só a Michele Pfeiffer consegue interpretar uma Eva/Serpente cheia de vigor e malícia a ponto de roubar a cena.

Dá para considerar a interpretação da Kristen Wiig boa, mas ela não tem muito tempo de tela. Ou seja, atores excelentes não conseguem demonstrar toda a sua capacidade no filme; não por culpa dos mesmos, mas por culpa do próprio longa.

 

6 – O marketing

Antes do lançamento, nos incomodou o marketing megalomaníaco que vendeu o filme como algo que ele não é. Uma grande obra de horror – fazendo comparação com a grandiosidade do clássico O Bebê de Rosemary, como mostramos no poster; um evento inesquecível,  como se Mãe! fosse a maior e melhor obra cinematográfica que você poderia ver. E não é bem assim.

Mãe! não é uma grande obra do horror. O filme se vale de recursos fáceis como a mudança de enquadramento da câmera para exibir um personagem, parado ameaçadoramente, atrás da protagonista.  Fica claro que a obra do Aronofsky não é a maior obra cinematográfica nem do ano, nem da década, nem de momento algum.

E depois do lançamento, nos incomoda como diretor e atores se utilizam de desastres naturais para vender o filme. Apesar de saber que esse tipo de comportamento é comum, nos resguardamos o direito de achar de péssimo gosto.

 

7 – A conclusão

Mãe! é um filme extremamente pretensioso, virtuosista, recheado da megalomania, que diz mais sobre o diretor do que qualquer coisa.

É um filme desonesto, ao tentar com sua excessiva pretensão demonstrar um valor intelectual que de fato não tem; ao jogar milhões de coisas dentro do filme sem  função nenhuma, mas fingindo ter um grande significado; ao tentar ser sobre tudo e acabar sendo sobre nada; por copiar e se inspirar de diversas fontes, mas pretender ser extremamente inovador. É um vendedor falso que tenta enganar ao te fazer comprar um gato, quando tudo que tem para vender é uma lebre.

Não compramos dessa vez, Aronofsky.

Mas valeu a tentativa.

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