Bliss, a inclusão em As Meninas Superpoderosas, e o uso de estereótipos raciais

Quando o Cartoon Network divulgou sobre uma nova integrante para as Meninas Superpoderosas e que ela era negra de cabelo azul, muito foi dito. Alguns fãs odiaram a ideia de uma nova personagem, alegando que o desenho só pode ter como protagonistas o trio original; outros disseram que odiaram o fato da Bliss – a nova Menina Superpoderosa – ter cabelo colorido ao invés de um cabelo castanho ou preto; uma parte disse que adorou por que finalmente uma minoria seria representada de verdade pelo desenho.

Existem diversos problemas com algumas das afirmações ditas contra a inclusão da nova personagem, mas o tema merece um texto específico para analisar e explicar as razões que me fazem determinar algumas frases inocentes como discurso racista. O caso é que o episódio de As Meninas Superpoderosas que apresenta a Bliss foi ao ar e eu tenho algumas considerações sobre ele (todas evitando spoilers).

Adolescente, a personagem é mais velha que as outras meninas e visivelmente com uma pele mais escura. Seu cabelo é liso e colorido, como dito anteriormente. Inicialmente me incomodou o fato dela ter cabelo liso, já que para uma jovem negra ter cabelo cacheado seria mais natural. Só que depois de analisar melhor este ponto comecei a imaginar que Bliss, na verdade, seria o que se chama de birracial ou multirracial, portanto não seria apenas negra, o que explicaria bem o cabelo liso. Sim, eu sei que e um desenho, mas é importante pensar que crianças ao redor do mundo o assistem e querem se enxergar na tela. Ao colocar uma adolescente com uma etnia mista, o show dá um passo à frente quando se fala de inclusão.

Só que nem tudo é tão positivo. A personagem tem um sério problema de temperamento, com uma grande dificuldade de controlar emoções. E aí temos o uso de um estereótipo muito problemático . É bastante comum às mulheres negras e latinas o estereótipo de mulher descontrolada, raivosa, barraqueira. Na verdade existem até estudos sobre o tema. E nomenclatura. Chamam de estereótipo da mulher negra raivosa.

Muitas vezes, quando incluem personagens negras ou latinas, as produções cinematográficas ou televisivas costumam colocar personagens femininas de pele escura como se não tivessem nenhum controle sobre suas emoções; como se toda mulher de pele mais escura estivesse sempre irritada, e quando se irrita fosse algo menos legótimo. E isso além de problemático é bastante ofensivo.

Por mais que seja importante a representação não branca dentro de um desenho com tanto alcance, acaba sendo bem complicada a forma como mostra a adolescente. Negros, latinos, pessoas não brancas desejam se ver nas telas ao redor do mundo. Inclusão e representatividade importam; mas quando essa inclusão é feita de maneira descuidada pode acabar trazendo mais pontos negativos que positivos.

O estereótipo de mulher negra raivosa é usado – mesmo quando não é de forma proposital – para silenciar a mulher negra, para minimizar suas demandas, seus problemas. Por mais que um desenho como As Meninas Superpoderosas use o estereótipo de forma superficial é importante que exista uma desconstrução desde a infância.

Então fica a dica. A presença de Bliss é importante e eu espero que ela comece a fazer parte do grupo de Meninas Superpoderosas, mas espero que comecem a desenvolver a personagem de uma maneira que não dissemine ideias preconcebidas.

Deixe uma resposta