Pode ser feminista e discordar das outras?

Claro que pode.

Lida assim, a seco, a pergunta parece estúpida: É claro que uma feminista não é obrigada a concordar!

Mas… você já tentou discordar para ver o que acontece?

Já tentou dizer que não gostou do novo Caça-Fantasmas? Ou que achou Mulher-Maravilha superestimado? Ou que a Sansa do seriado é uma menina boba que só pede socorro?

Já experimentou dizer que não gosta da Beyoncé? Ou que acha que a Taylor Swift é exageradamente crucificada?

Que fique claro, neste ponto, que não estou dizendo que qualquer dessas é a minha opinião. Mas tenho olhos para acompanhar discussões e ver que opiniões assim quase nunca são bem recebidas em âmbitos de debates feministas.

E até aqui estamos falando apenas de cultura pop. Bobagens… se comparadas a discussões mais viscerais como a posição do transativismo em relação ao feminismo, ou polêmicas como a “legalização X proibição” da prostituição/pornografia. Nesses últimos a discussão não apenas se transforma em briga, como pessoas são expulsas de espaços que deveriam ser seguros .

Expulsões, brigas e ofensas que muitas vezes são acompanhadas do pensamento “Ela não é feminista de verdade” que, embora nem sempre venha escrito assim com essas exatas palavras, tem esse significado por essência.

“Ela não é feminista de verdade porque não concorda comigo”.

A frase completa – que muita mana tem medo de dizer – é essa.

Então, eu te pergunto de novo: pode ser feminista e discordar das outras?

Ser feminista não significa que você é obrigada a abrir mão de suas interpretações para poder ser aceita pela maioria. Ser feminista, na verdade, é natureza que pode ser traduzida tanto pela glorificada frase da Chimamanda Adichie, como pela simples ideia do “ser obrigada a nada”.

Pode não gostar de Caça-Fantasmas, pode não gostar de Mulher Maravilha. Pode não gostar de Sansa. Pode até não gostar da Beyoncé.

Tá valendo.

O importante é – e essa aqui é uma opinião – não perder a habilidade de refletir sobre B mesmo quando todo mundo diz A. Afinal, repetir o pensamento majoritário e seus argumentos não é desenvolver senso crítico, mas virar espelho de opinião alheia.

A maioria nem sempre está certa. Anatole France não estava errado quando disse que “se cinquenta milhões de pessoas dizem uma besteira, essa coisa continua sendo uma besteira”.

Veja bem: gostar ou não gostar de Sansa – ou de qualquer personagem real ou fictício, por sinal – não é uma besteira por definição. Besteira é você achar que tem que gostar de Sansa porque não quer discordar de Maria ou Joana.

Maria e Joana são bem inteligentes, eles sabem o que estão falando… e quem sou eu?

Vou abrir aqui um parênteses (ou incluir uma tangente, pode escolher a analogia) para compartilhar algo que se passou comigo há algumas semanas: Uma mídia feminista, que eu acompanho e admiro, destruiu um de meus filmes clássicos mais queridos. O argumento é de que havia perpetuação de machismo do tipo mais vil tanto em seu original quanto no remake.

Admito – com alguma vergonha – que já fui o tipo de pessoa que teria apenas ignorado essa opinião ou deixado de seguir a mídia. “Exageradas, faltou interpretação” a Julianna prepotente de alguns anos atrás poderia ter dito.

A Julianna de umas semanas atrás, no entanto, admito – com algum orgulho – leu o artigo completo e sentou para ver, de novo, seu filme favorito levando a crítica em consideração.

Meu ponto é que – e perdoem-me pelas excessivas citações – Gil Scott-Heron sabia das coisas: A primeira revolução é quando você muda de ideia. Quando VOCÊ aceita que talvez exista um modo novo de encarar uma coisa, e que ainda não tinha percebido.

Essa capacidade de questionar convicções formadas despindo-se do comportamento argumentativo defensivo é o que gera um bom senso crítico. Um autônomo e verdadeiro. Porque, depois do questionamento, mesmo que você decida seguir com sua opinião de antes, fica o gosto certo de que aquilo é uma reflexão, não uma teimosia.

Adoro que o feminismo tenha virado hype, pop, top, cultura que você vê na página de Facebook e na conversa de intervalo das aulas. Coisa boa a gente tem que divulgar, espalhar. Essa postura de “gostava antes de se vender” pode ser raiz, mas também pode ser papo arcaico de quem se acha intelectualmente superior por conhecer muito bem o inacessível, não por excesso de interesse mas por ausência de concorrência.

Mas o Bom e o Ruim são melhores amigos de infância e é difícil ver jogo de bola que tenha um só.

O Ruim que veio de mãos dadas com a popularização do feminismo é a disseminação da repetição ao invés do estímulo a fagulha da crítica.

Estamos todas aqui, nós mulheres feministas, de mãos dadas criticando as mesmas coisas, do mesmo jeito, usando as mesmas palavras. Se você discorda da nossa discordância, discordamos de você e solte nossas mãos.

Como já disse, confesso – com alguma aflição – que já assisti, em mais de uma ocasião, mulheres sendo expulsas de espaços digitais que se diziam seguros, apenas por apresentar opinião dissidente da maioria.

E, por favor, percebe que há uma diferença intrínseca entre opinião e discurso de ódio, o primeiro que aqui se defende, o último que aqui se despreza.

Há pouco, a própria Chimamnda Adichie quase encontrou a guilhotina metafórica (que mata mais que a verdadeira) por questionar o papel do transativismo. Foi taxada de transfóbica, reacionária, essencialista (Essencialista, a Chimamanda! O disparate!), porque ousou questionar o movimento.

Um movimento que não se questiona é um movimento que não evolui.

E coisa que fica estagnada, afunda. Não é a opinião, é a física.

Eu não estou aqui escrevendo para te dizer que o certo é questionar tudo e estúpido é quem não questiona. Primeiro, porque quem sou eu para te dizer o que fazer? Eu que tenho sujeiras na minha louça iguais ou piores que as suas?

Não vim pra traçar padrões.

Vim só pra lembrar que, às vezes, é saudável se manter aberto a questionamentos feitos ao padrão, ao invés de sempre tomá-los como infantis, inócuos, loucos ou agressivos. Às vezes, a pessoa do outro lado sabe o assunto tanto quanto você e vale a pena conversar. Às vezes, sabe mais e vale a pena ouvir.

Vale a pena reassistir o filme, considerar as palavras.

Talvez eu devesse esperar que você entendesse meu ponto e concordasse comigo, começando a primeira revolução mudando a si mesma. Mas, por questão de coesão textual, me pego preferindo que você discorde de mim.

Ache que eu estou errada.

Questione.

Discorde.

Exatamente!

Obrigada.

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