[Crítica] Blade Runner 2049: a junção do velho e o novo

 

 

ATENÇÃO! O TEXTO ABAIXO CONTEM SPOILERS!

 

Em 1978, Tubarão 2 começou uma moda impertinente em Hollywood: fazer continuações, não pelo conteúdo, mas pelo lucro.

Embora seja, de fato, um bom plano para os estúdios – que levam o valor líquido da bilheteria-  para o público, a moda se traduziu em receio sempre que uma nova sequência é anunciada. Principalmente se é de um filme querido pelos fãs.

No entanto, se há uma curta lista de sequências que mereceram ser feitas, Blade Runner 2049 certamente está incluído em lugar de destaque.

O diretor Denis Villeneuve se preocupa em fundir fortes referências ao filme anterior com quebras de barreiras inovadoras, resultando em um filme que (apesar de misturar bem o velho ao novo) funciona melhor como uma continuação imediata do original, do que como uma história independente. O argumento pode soar como obviedade, afinal 2049 É uma continuação… Mas o que falo é com a intenção de um aviso: é preferível assistir o original antes de se lançar na experiência.

O compasso da narrativa segue a lentidão típica do cyberpunk/noir, como manda o manual, tornando a empreitada consideravelmente mais proveitosa para os que gostam de beber dessa fonte. O visual do filme é elemento que precisa ser elogiado a parte: a composição da poluição visual em neon e detritos, contraposta com o minimalismo da aridez tecnológica cria planos de fundo belíssimos. Sem contar que as opções de enquadramento e jogo de luz e sombra – que em muitos momentos lembram ângulos típicos de graphic novels – tornam ainda mais divertida a jornada cinematográfica que é Blade Runner.

Mas é a quebra de paradigma da narrativa que – na minha opinião – constituiu o ponto alto da história.

Do Blade Runner original a filmes como O Sexto Dia, estamos sobrecarregados de histórias que nos mostram o caçador se descobrindo criatura: Deckard era um androide como os que perseguia, Gibson era um clone como os que enfrentava. É um lugar comum para inversões de trama em filmes de ficção. O protagonista caça o monstro apenas para descobrir que era – ele mesmo – parte do que odiava.

2049, no entanto, trouxe uma inversão refrescante nesse quesito com o androide que suspeita ser um humano (ou o mais perto disso que um androide poderia ser), transformando o filme em algo como uma cyber-opera, ao misturar os elementos típicos do cyberpunk com o redemoinho de emoções que vivemos através do ponto de vista do seu personagem principal.

Preocupou-me, no início do filme, que o plot-twist seria apenas esse: um clímax final com o androide K se descobrindo humano. As evidências que o filme entrega nesse sentido, desde o começo, são fortes e inescapáveis, a ponto de ser patético defender que um detetive androide não perceberia o que boa parte do público percebeu. Fiquei feliz quando o roteiro se distanciou disso: K percebe o mesmo que o público e luta para reunir peças do quebra cabeça que confirmem ou refutem sua hipótese, além de dúvidas.

A virada final ser a percepção de que estava enganado – e que não era humano – foi, pra mim, de uma beleza narrativa quase sem precedentes.

Não, você não é especial.

Você ainda é apenas o monstro que persegue.

Você não está satisfeito sendo apenas isso.

Pare de mentir.

Lute.

Não por ser especial, mas por ser comum.

Foi sublime, sem dúvidas.

Essa inversão, para mim, foi a melhor parte da obra e o motivo pelo qual vou defender sua existência.

O fan-service também estava lá para quem quiser vê-lo, indo ao ponto de mesclar o filme original com o livro que lhe deu origem, quando um dos entrevistados por K lhe mostra um origami – figura presente no filme original – de ovelha – possivelmente em referência a “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, título do livro de Philip K. Dick que inspirou a franquia.

No entanto, nem só de louros da vitória vive 2049

Foi difícil pra mim não comparar essa sequência com Mad Max: Estrada da Fúria. Talvez porque são filmes de estilos similares que atraíram principalmente o público masculino em seus dias de origem. Ou talvez porque todo site de acompanhamento de bilheterias parece ter decidido fazer o paralelo justamente entre esses dois…

Seja como for, apesar de suas óbvias diferenças, tornou-se uma comparação inevitável e, na minha opinião, Blade Runner 2049 falhou no ponto em que Mad Max mais teve êxito: reinventar-se para suprir a demanda de um novo público.

Enquanto Max Max abraçou a ideia de que o público feminino compra filmes de ação com tanto amor quanto o masculino, o novo Blade Runner parece ter ficado no meio do caminho.

O diálogo de opressão e igualdade em Mad Max, com sua crítica social intrínseca em suas várias facetas, é algo que não vamos encontrar em Blade, nem superficialmente.

Temos mais mulheres aqui do que no original: a chefe de polícia “Madame”, a antagonista principal, a acompanhante de K, a prostituta/espiã… mulheres existem no filme em um volume maior – o que é condecorável por si só – mas é só isso de positivo que fazem: existem.

Não interagem a não ser para matar uma a outra ou brigar pela atenção masculina.

Sua presença é fortemente associada a sexualidade, sendo Madame a única que tenta fugir um pouco desse padrão, apenas para concluir-se na cena em que – ela também – faz uma investida sexual a K.

Objetos, figura de cenário e plano de fundo: temos mulheres cumprindo todos esses papeis. Da mulher-brinquedo (comprada em uma loja para suprir a solidão do androide), ao outdoor dançante de uma mulher pelada: Frequentemente nuas e convidativas, a presença feminina aqui é um oposto cruel ao poder feminino que se tornou referência em Mad Max.

Apesar da parca representatividade feminina em cenas que beiram o sexismo agressivo, acredito que Blade Runner 2049 teve pontos altos que justificam sua relevância, em um período do cinema em que estúdios parecem trazer de volta filmes sem conteúdo, para forçar bilheteria apelando para a nostalgia. Não é o caso aqui. A excelência tanto do roteiro quanto dos artifícios visuais tem todos os elementos necessários para garantir a 2049 um lugar de prestígio próximo ao original.

Dificilmente é o melhor filme que vi este ano e certamente tem uma porção de falhas que precisam ser apontadas e discutidas, mas é uma obra que merece seu espaço, ainda assim. Com o potencial para reconquistar os fãs de longa data e fazer uma porção de novos.

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