Atriz de The Big Bang Theory culpa vítimas por agressão sexual?

 

Há uma semana, conversamos sobre Mayim Bialik.

Na ocasião, a atriz – conhecida por interpretar Amy Fowler no seriado The Big Bang Theory – criticou relacionamentos abertos, tentando passar suas opiniões conservadoras por fatos e, após ser avisada pelo público da profundidade de seus erros, informou-se melhor e postou o pedido de desculpas.

No entanto, parece que Bialik realmente adora pedir desculpas pelas besteiras que fala, porque mal passou um mês do primeiro incidente e já está ela aqui, de novo, professando absurdos.

Dessa vez, a polêmica ficou por conta de uma coluna de opinião no The New York Times, assinada pela atriz, em que comenta as acusações de agressão sexual feitas contra o produtor Harvey Weinstein, na última semana.

Tirando a crítica que – rapidamente – é feita à Indústria Hollywoodiana por sua objetificação do corpo feminino, pouca coisa se salva da insanidade que é o texto de Bialik.

Em um texto auto-apreciativo em que conta suas próprias vitórias, prêmios e seu trabalho em prol das mulheres, Bialik gasta o primeiro terço do artigo relembrando o público que conseguiu tudo isso apesar de sua aparência fora do padrão. Essa opção argumentativa renderia bons frutos se a crítica a coisificação da mulher e ao espaço diminuto reservado a certas delas fosse o foco da autora.

“Eu não me parecia ou agia como nenhuma das outras garotas na indústria (…) Sempre soube que eu não seguia as regras para mulheres e garotas em Hollywood”, diz Bialik. Ao começar o texto separando-se das demais, ela se perde no tropo sexista da “mulher que não é como as outras e por isso é especial”. Não, senhorita, sinto muito. Certamente há MUITAS mulheres como você na indústria. Sofrendo os mesmos preconceitos e a mesma realidade. A própria Meryl Streep disse que perdeu papeis no começo da carreira porque não era considerada bonita. Você não é a única. Desculpa.

O texto segue enquanto ela se perde em divagações sobre como sua mãe não permitia que ela usasse maquiagem ou fizesse manicure, encorajando-a a ser ela mesma em audições para papeis. Dicas que ela afirma – com orgulho – ter seguido, sem deixar que ninguém a chamasse de “querida” ou exigisse abraços no set.

Após a repercussão desse artigo, Bialik liberou uma declaração dizendo que sua mensagem foi interpretada fora de contexto.

Mas qual o contexto aqui, então?

Que as mulheres que Weinstein jogou contra a cama, fez convites inapropriados ou tocou sem sua permissão não foram elas mesmas? Ou talvez elas tivessem feito manicure? Usado maquiagem?

A atriz defende-se afirmando que entender sua mensagem é uma questão de contexto, mas falha em nos explicar QUAL seria esse contexto.

“Por ser uma feminista que não se interessa por dietas ou cirurgias plásticas” continua “não tenho experiência com homens me convidando para reuniões em seu quarto de hotel”. De novo, pergunto-me: O contexto aqui é que as mulheres que sofrem agressão não são feministas? Apenas mulheres obcecadas com aparências são vítimas de agressão sexual?

Bialik conclui o texto dizendo que, até hoje, toma decisões inteligentes para se proteger: “Visto-me modestamente. Não flerto com homens” explica. E então, o golpe de misericórdia: “Em um mundo perfeito, mulheres deveriam ser livres para fazer o que quisessem. Mas nosso mundo não é perfeito. Não existem desculpas para agredir ou abusar de uma mulher. Mas não podemos ser inocentes sobre a cultura em que vivemos”.

Que Bialik é uma feminista – como repete a exaustão em seu texto – não tenho dúvidas. Não sou qualquer tipo de guardiã de formulário de inscrição, e acredito que qualquer mulher que defende a igualdade é uma feminista.

No entanto, me parece que falta a Bialik uma boa quantidade de informação, debate e – mais importante – desconstrução de opiniões arcaicas que ela ainda carrega e exibe com bastante valor.

A força do feminismo não é a especialidade de uma única mulher diferente de todas as outras: é a nossa união. Os elementos que nos fazem iguais, colocando-nos do mesmo lado do campo de batalha. Ao mesmo tempo, qualquer sugestão de que você não sofreu abuso porque não possui os elementos físicos considerados padrão, indica uma crença equivocada de que só um grupo de mulheres sofre abuso: o que não é verdade.

E, por último, o feminismo reconhece que o mundo não é perfeito… mas o caminho para aperfeiçoá-lo é lutar para que mulheres possam fazer o que quiser. E não advogar para que elas se escondam e aceitem que não podem. Reconhecer a imperfeição do mundo precisa ser a fagulha para a conscientização, não um incentivo para que nós sigamos regras injustamente impostas.

Em seu parágrafo final, Bialik ainda reúne delírio suficiente para dizer que “se você não é uma mulher com beleza padrão, não se preocupe, existem pessoas que vão te achar linda ainda assim. E a melhor parte é que você não precisa ir para um quarto de hotel ou um casting couch para encontrá-las…. comentário final que é de uma violência argumentativa contra as vítimas em um nível tal, que eu sequer vou me dar o trabalho de elaborar.

“Sei bem que essas minhas escolhas podem parecer ofensivas para muitas feministas jovens” diz.

Pois é, Bialik… e te garanto que parecem ofensivas para as velhas também.

 

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