A Filha Perdida: a maternidade como você nunca viu

Sem sombra de dúvida meu maior amor literário de 2017 foi Elena Ferrante. Sua escrita tem o poder de falar comigo de forma muito direta, dizendo coisas que nem sempre quero ouvir. Ler algo criado por ela nem sempre é fácil, muitas vezes machuca o leitor. E da mesma forma seus personagens parecem sempre machucados de alguma forma.

E isso é o que encontramos em A Filha Perdida, minha primeira incursão na literatura da Ferrante fora da tetralogia napolitana. No livro somos apresentados a Leda, uma mulher na casa dos 40 e já caminhando para os 50 anos, que está de férias no litoral da Itália. Sozinha, agora que as filhas já adultas se mudaram para o Canadá, ela se pega observando o relacionamento entre uma jovem mãe e sua filha pequena que carrega uma boneca para todos os lugares. Enquanto observa as duas, começa a pensar em si mesma e nas escolhas que fez como mãe.

As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender”. Leda diz isso no início do livro e a frase reverbera durante toda a narrativa. Em poucas páginas – o livro é curto – Ferrante nos leva para as profundezas de uma personagem difícil de ser compreendida e com certeza será julgada pela maioria. E como Leda, a maternidade como retratada pela autora, também é complexa e de difícil compreensão.

Muito tem sido escrito sobre o tema dentro da literatura feita por mulheres. Em alguns casos encontramos as dificuldades de ser mãe e continuar existindo como um ser humano, com falhas, desejos, dores. A maternidade que sempre é vista como o ponto alto da vida de uma mulher, é tratada por algumas autoras como algo que traz muito mais do que apenas felicidade. E a forma descrita por Ferrante traz uma complexidade que é capaz de atordoar o leitor em alguns momentos.

Como é uma narrativa em primeira pessoa, ter contato com quem é Leda, sem nenhum tipo de filtro, tendo acesso a seus pensamentos mais crus causa incômodo. Nenhum filho quer pensar que sua mãe pode ter tido pensamentos horríveis a seu respeito. A maioria das mães não quer se ver como alguém capaz de sentimentos ruins para com sua cria. A Filha Perdida traz esse tipo de tapa na cara e que é muito difícil de lidar.

Na nossa sociedade a maternidade é endeusada. Veja como a questão do aborto é um tabu tão grande. Mulheres são ensinadas que seu corpo deseja isso, que sua vida só será completa após produzir um outro ser humano. E que essa é a maior realização da vida de uma mulher. Longe de mim questionar a beleza da maternidade nem o quanto é incrível gerar outro ser humano, mas a maternidade compulsória é um problema social e que afeta as mulheres ao redor do mundo. E Leda, ao rememorar seus anos de mãe e de filha vai pensar sobre isso. Vai falar sobre o amor de ter filhos, de ver crescer aqueles seres que você pôs no mundo; mas também vai questionar a anulação da mulher, do indivíduo em prol da maternidade. E nenhum dos questionamentos aparece de maneira graciosa e de fácil digestão.

É um livro que mexe com suas emoções, como tudo que a Ferrante escreve. Te incomoda, te faz sofrer. E é exatamente por isso que é tão bom.

 

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