[Crítica] Em Busca de Fellini

 

Na arte, às vezes é preciso relativizar a realidade e, às vezes, é preciso abandoná-la completamente.

Em Busca de Fellini conta a história de Lucy (Ksneia Solo), uma garota hiper-protegida por sua mãe (Maria Bello), que não experimentou a vida como seria esperado de uma garota de sua idade. É ao encarar o inevitável momento de abandonar o ninho que Lucy conhece o trabalho do diretor italiano Federico Fellini.

Tocada pela arte que acabou de descobrir, a jovem parte em uma jornada pela Itália em busca de si mesma – mais que de Fellini – misturando o real ao irreal, aceitando que entre os dois, às vezes, a diferença é irrelevante.

O filme é agridoce. Confunde e emociona. É superficial para personagens, mas profundo para a audiência. E embora o resultado final deixe o calor da satisfação diante da jornada, você não consegue abandonar a ideia de que há algo faltando.

Duas foram as principais questões que tive com o filme.

1 – O fanservice.

As referências aos filmes de Fellini são evidentes mesmo para quem não conhece o trabalho do diretor. Considerando o tema do filme, não acredito que poderia ser diferente, mas, em momentos, é difícil afastar a sensação de ficção feita por fãs. Como se diretor e roteirista estivessem mais preocupados em reproduzir o trabalho de Federico Fellini do que interessados em fazer uma homenagem. Com isso, o longa se perde em desconstruções visuais complexas que acrescentam pouco em narrativa ou emoção, em sequências que parecem ter sido montadas com o efeito único de pegar um pouquinho do Fellini para si. Como um fã desesperado que quer nada além de ser citado na mesma frase que seu ídolo.

Mesmo sem ser profunda conhecedora do trabalho do italiano, foi possível identificar sequências que claramente deveriam estar ali para referenciar o trabalho de Fellini, e não para desenvolver positivamente a obra em primeiro plano.

2 – O quebra cabeça

O roteiro tentou unir dois mundos, entrelaçando o real ao irreal com representação da constância e inconstância pela visão de mãe e filha, respectivamente e, embora seja uma ideia louvável, a execução deixou a desejar, resultando em uma colcha de retalhos que nem sempre agrada aos olhos.

Há beleza nos retalhos. Mas não há continuidade.

Com isso, quem resta prejudicada é a história que, apesar dos seus maiores esforços para nos convencer que não precisa fazer sentido, falha em nos dar algo em troca da razão que nos pediu para abandonar.

Talvez tivesse sido melhor abandonar a realidade de vez e fazer como Peixe Grande, que nos dá magia para abraçar e não para questionar.

No entanto, levantadas essas duas questões, Em Busca de Fellini é um filme bonito, delicado e que merece ser assistido.

Seus diálogos metalinguísticos separando o cinema americano do europeu são didáticos ao explicar a si mesmo, como se os personagens estivessem nos guiando através do que precisamos assistir. E, embora por vezes pareça apenas um modo do roteiro pedir desculpas pelos erros que cometeu, essa dinâmica funciona muito bem para tornar a viagem única.

Além de ser um filme para amantes de Fellini, eu diria mais: é um filme para amantes de filme. A busca imaterial pela fonte de nossas inspirações, a alegoria poética de seguir nossos exemplos e a constância da procura por respostas absolutas, feitas por quem sequer sabe a pergunta, são emoções que, em um grau subconsciente, todos podemos nos identificar. Trazer uma dose de realidade para essa jornada tão verdadeira – e tão humana – foi o que, acredito, mais me emocionou.

 

Confira o trailer:

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