[Crítica] O Jovem Karl Marx é bem executado, mas quadrado

O nome Karl Marx sem sombra de dúvidas é conhecido de muitos. Um grande número de pessoas sabem alguns de seus feitos, sua história, seus estudos; outros tantos reproduzem o que escutam por aí. O longa O Jovem Karl Marx é uma obra do tipo que aproxima o filósofo das pessoas, mas possui algumas falhas que incomodam.

O cineasta haitiano Raoul Peck (diretor de Eu Não Sou Seu Negro) resolveu que estava na hora de falar um pouco mais da vida de Karl Marx e dos que o cercaram durante sua juventude, especificamente do espaço de tempo que vai da primeira metade do século XIX até a publicação de O Manifesto Comunista. Só que se engana quem imagina que o filme é uma cinebiografia da figura história. Apesar do título, o filme trata mais da relação entre ele e Engels e da  influência que sua esposa Jenny teve no relacionamento dos dois.

O filme inicia com Marx, após o fim da Gazeta Renana – jornal que colaborava – mudando-se para Paris com Jenny. Lá ele passa sérias dificuldades e conhece Friedrich Engels, o filho bem nascido de um industrial da época, mas que se ressente dos privilégios que possui em detrimento do sofrimento dos trabalhadores que fazem toda a obra pesada. Por conta disso o jovem Engels escreve contra o sistema opressor do qual faz parte. O filme traça um retrato do relacionamento dos dois do momento em que se conhecem até a criação do manifesto.

É interessante observar como um incentiva o outro a produzir e lutar por uma realidade melhor. Interessante também é o papel da esposa de Marx dentro disso tudo. O longa deixa claro que Jenny não era apenas uma esposa troféu. Ela participava ativamente das decisões da vida do marido e também possuía uma forte amizade com Engels. Em um dado momento cheguei até a me questionar se o filme não seguiria pela linha do triângulo amoroso, mas o foco passa longe disso.

O longa possui alguns acertos como retratar Marx como um homem comum, cheio de falhas e de pessoas ao seu redor que estão dispostas a ignorar seus defeitos por conta da sua inteligência, e ajuda-lo quando necessita. É uma escolha feliz deixar de lado o mito Karl Marx.

Os atores estão bem em seus papéis. August Diehl como Marx retrata bem a raiva potente e indignada do personagem e Stefan Konarske apresenta um Engel cheio de vivacidade. Já Vicky Krieps é uma Jenny cheia de força diante de qualquer adversidade. Uma interpretação realmente interessante de se ver.

É um filme bem executado, com todas as partes técnicas no lugar, apesar da direção ser tradicional demais, até um pouco enquadrada em alguns momentos. Além disso, particularmente a forma da passagem de tempo que o filme usa, me incomoda. Não sinto a necessidade de a cada mudança de ano – e algumas vezes de lugar – precisar ser informada via legenda.  Essas passagens de tempo poderiam ficar claras dentro de algumas ações colocadas no roteiro, que carece um pouco mais de afinamento.

Para um filme sobre Marx e Angels, dois nomes tão importantes dentro da história, que eram pessoas à frente do próprio tempo e que lutaram com tanto afinco pelos seus ideais, o filme peca exatamente por não ter nada de subversivo e apenas jogar com os elementos em um padrão conhecido. Em alguns momentos chega a tentar ser emocional demais, e falha.

É uma obra relativamente agradável de se ver, mas que joga com cartas já conhecidas, o que acaba por decepcionar.

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