[Crítica] Lou e o retrato de uma mulher à frente do seu tempo

 

Lou Andreas-Salome foi uma mulher muito a frente do seu tempo. Nascida em São Petersburgo e filha de um general do exército com sua esposa religiosa, foi  a única filha mulher dentre os seis filhos do casal. Desesperada por educação formal – o que a maioria das mulheres não tinha na época – ela conseguiu convencer um padre a ensiná-la teologia, filosofia, literatura francesa e alemã. Ela gostava tanto de estudar que conseguiu ir para a universidade, em Zurique, a única que aceitava mulheres na época.

O filme conta a história da intelectual, não só das suas conquistas educacionais e profissionais, mas da sua vida privada. Lou, nos primeiros anos da sua vida adulta decidiu que não iria se relacionar sexualmente com ninguém. Ela acreditava que o sexo fazia com que as pessoas perdessem o foco, atrapalhando a fruição intelectual. Como muitos homens intelectuais da época, como Nietzsche, se apaixonaram por ela, sua negação ao sexo lhe causava diversos problemas.

Começando com a personagem já idosa, vivendo em um clima de tensão por conta da iminente Primeira Guerra Mundial, com a visão fraca e usando os serviços de um homem mais jovem para escrever suas memórias; o filme retrata as mais diversas fazes da vida da intelectual. Sua forma de ver o mundo, suas mudanças de ideologia e interesses, suas paixões e amizades, sua aproximação com Freud e a psicanálise.

Uma coisas que se estabelece logo nos primeiros momentos do longa é que apesar dos inúmeros homens que fazem parte da sua história, o centro da sua vida sempre foi ela mesma, em uma época onde a mulher não tinha lugar para ser dona do próprio pensamento, Lou se colocava como prioridade.

A interpretação da Katharina Lorenz como a Lou adulta é bem forte. Ela consegue balancear as emoções da personagem de uma maneira palpável, também demonstra sua sagacidade, sua personalidade desafiadora com facilidade. É um retrato bem completo que a atriz consegue passar. A personagem também é interpretada com bastante qualidade pela atriz Nicole Heesters, que mostra a Lou aos 70 anos, já mais debilitada pela vida e pelo tempo. A personagem também é interpretada pelas atrizes Helena Pieske e Liv Lisa Fries mostrando Lou respectivamente na infância e aos 17 anos. Os outros atores também estão bem, mas o filme é da personagem e ela toma conta da cena completamente.

Como o número de atrizes para apresentar uma mesma personagem é capaz de deixar claro, o longa abrange um grande período de tempo dentro da vida da protagonista. Para retratar as mudanças de época o diretor usa um recurso curioso: ele coloca cartões-postais no início das cenas e Lou aparece se movimentando dentro desses postais, nos ambientando ao novo lugar. É um recurso que inicialmente é interessante, mas é repetido tantas vezes que cansa.

Lou é uma intelectual que, sendo mulher, não é tão conhecida hoje como os homens da sua época. O filme poderia ser mais conciso, talvez um pouco menos quadrado nos padrões europeus, já que representa a vida de alguém tão à frente do próprio tempo. AInda assim é uma cinebiografia que apesar das falhas vale a pena.

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